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Praia de Nudismo

janeiro 11, 2014

Praia de Nudismo

Ninguém nasce com roupa
Todos nascemos pelados
Assim como ninguém nasce mau
Se torna mau quando ensinado

Ver um corpo despido
Altera tanto o seu estado?
Te faz perder os sentidos?
Trocar o certo pelo errado?

Ondé que tá o pecado?
Caralho, peito, vagina
Tudo isso é tão natural
E a natureza não é divina?

A bola da vez:

julho 2, 2011

QUALQUER COINCIDÊNCIA É MERA SEMELHANÇA!! NÃO AO NEPOTISMO!!

Belo Horizonte cria Parceria Público Privada na educação

maio 9, 2011

É isso mesmo. Marcio Lacerda, depois de reduzir a verba para educação e aumentando na publicidade (só assim mesmo para convencer a população de que ele não é mau gestor, mas ele é sim!), eis que agora a Prefeitura de Belo Horizonte vai criar parcerias público-privadas para a educação da cidade!

Leiam a notícia abaixo:

Belo Horizonte cria Parceria Público Privada na educação

 A iniciativa privada será responsável pela construção e gestão dos serviços não pedagógicos de 37 novas escolas, relata o Valor

A prefeitura de Belo Horizonte assinou um convênio para criar a primeira Parceria Público Privada (PPP) na educação. Segundo o jornal Valor Econômico, a previsão é de um investimento de R$ 200 milhões.

O projeto prevê a construção de 37 escolas, sendo 32 de ensino infantil e as outras de fundamental. A iniciativa privada será responsável pela construção e gestão dos serviços não pedagógicos, como limpeza, segurança e compra de materiais, por exemplo.

As novas escolas atenderão 20 mil alunos. Belo Horizonte tem hoje 54 escolas infantis e 186 de ensino fundamental.

O secretário de Desenvolvimento, Marcello Faulhaber, disse à repórter Beth Koike que o “consórcio vencedor terá um contrato longo, entre 30 e 35 anos, para administrar as escolas”. Segundo ele, este é “o tempo para pagar e remunerar o investimento, que será totalmente feito pela iniciativa privada”.

O responsável pelo estudo de viabilidade econômica, técnica e jurídica do projeto é o International Finance Corporation (IFC), órgão do Banco Mundial para o setor privado. O diretor do IFC, Mauricio Portugal Ribeiro, acredita que “com uma empresa administrando os serviços de suporte, o diretor da escola terá mais tempo para cuidar de questões pedagógicas”.

O jornal informa que o consórcio deve ser contratado até o final deste ano e as obras das escolas comecem nos primeiros meses de 2012.

 A PPP na área educacional é firmada oito meses após a criação de uma Parceria Público Privada na área da saúde, para a reforma de 80 dos 147 postos de saúde da capital mineira.

Mais uma vez gritamos: NÃO A MÁRCIO LAMERDA!

Plenária do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa

fevereiro 18, 2011

Divulgue e compareça!

Para quem ainda não entendeu a Lei de limitação de uso da Praça da Estação.

janeiro 27, 2011

Aqui é possível ler na integra a Portaria SARMU-S Nº 02/2010 publicada no DOM.

A parte que segue, grifos nossos, demonstra onde a PBH se confunde.

Art.3º – Compete ao interessado na realização dos eventos previstos no art. 2º desta Portaria a apresentação de projeto, informando a finalidade do evento, o público estimado, a duração, inclusive o prazo destinado à montagem, à desmontagem e à limpeza.

§1º – O projeto deverá conter, sem embargo de outras exigências previstas no Decreto Municipal nº 13.792/09, ainda:

I – planta de localização de todos os equipamentos a serem utilizados;

II – planta de localização dos banheiros químicos a serem utilizados, observada a proporção mínima de 1 (um) banheiro químico para cada 100 pessoas, não podendo ser instalados sobre o piso da Praça; (1)

III – planta de cercamento por tapume ou outro material, a critério da Administração Pública, dos jardins, árvores e monumentos da Praça da Estação e da Praça Rui Barbosa, observada a altura mínima de 1.80 m (um metro e oitenta centímetros);

IV – planta de cercamento delimitando a área do evento, visando permitir o controle do número de pessoas, bem como o acesso ao Museu de Artes e Ofícios, à Estação do Metrô e a circulação de pedestres, observada a altura mínima de 1.80 m (um metro e oitenta centímetros); (2)

V – parecer favorável da Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte – BHTRANS;

VI – projeto aprovado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais;(3)

VII – projeto do mecanismo a ser empregado visando à proteção das fontes e do piso;

VIII – projeto de segurança, particular e/ou pública, para proteção dos participantes, do patrimônio e dos transeuntes, acompanhado da Anotação de Responsabilidade Técnica – ART; (4)

IX – projeto de palco, equipamentos de amplificação de som e iluminação ou quaisquer outros relativos à montagem;

X – projeto dos engenhos de publicidade a serem utilizados durante o evento. (5)

§2º – A solicitação, acompanhada do projeto, deverá ser apresentada à Secretaria de Administração Regional Municipal Centro-Sul com antecedência mínima de 30 dias úteis, em relação à data do evento.

§3º – A autorização a que alude o inciso III do art. 2º desta Portaria está condicionada, ao pagamento de preço público fixado pelo Decreto nº 13.961, de 4 de maio de 2010, sem embargo dos demais tributos pertinentes.(6)

§4º – Autorizada a utilização da Praça da Estação, caberá ao interessado, na hipótese de evento previsto no inciso III do art. 2º desta Portaria, realizar, sob pena de caducidade, caução em dinheiro, nos termos do § 10 do art. 4º do Decreto nº 13.792/09, observados os valores mínimos definidos no Anexo Único desta Portaria, no prazo de 20 dias, que antecede a data do evento.

§5º – Na hipótese de insuficiência da caução para assegurar o ressarcimento pelos danos causados, o interessado será intimado a depositar a diferença em até 10 dias úteis após apuração do valor do prejuízo, sob pena de cobrança judicial.

§6º – A garantia prestada será devolvida ao interessado se, de acordo com a vistoria que se realizará após o evento, não forem detectados danos.

 

Art. 4º – O interessado deverá portar os documentos arrolados no § 1º do art. 3º desta Portaria durante todo o tempo de realização do evento e enquanto em curso a montagem e desmontagem.

Art. 5º – O interessado é o responsável pela realização da limpeza da Praça da Estação, da Praça Rui Barbosa e dos quarteirões adjacentes (Ruas dos Guaicurus, dos Caetés, da Bahia, Aarão Reis e Av. dos Andradas). (7)

§1º – A limpeza deverá ser realizada imediatamente após o término das atividades do evento, com varrição, lavagem do piso e coleta dos resíduos sólidos.

§ 2º – Descumprido o dever estabelecido no “caput” deste artigo, poderá o Município realizar a limpeza às expensas do responsável, executando, se for o caso, a caução em dinheiro. (8)

 

1. Esta planta deveria ser fornecida pela Prefeitura, com a indicação técnica dos locais onde devem ser instalados os equipamentos.  A Prefeitura além de gestora do lugar é responsável pela sua estrutura e deve conhecê-la. A exigência dessa planta é uma burocracia para desestimular a utilização da Praça, além de onerar os organizadores dos eventos.

2. As justificativas para o cercamento, encontradas no início do documento, e nunca comprovadas, são afirmação aleatórias, já mostraram serem resolvidas de outras formas. Apresentarei estas nos outros números. É importante percebermos que a partir deste momento a Praça vira um espaço particular. Esta exigência além de descabida onera muito a realização de qualquer evento na Praça. Agora, imagine a mão de obra para se montar e desmontar tudo isso, além do tempo, o barulho e o caos na Praça.

3. Como foi recomendado no número 1, sendo a planta fornecida pela prefeitura, já estaria aprovada pela PM, Corpo de Bombeiros e BHTrans e o projeto seria executado dentro dessas normas. Inclusive a PM, os Bombeiros e a BHTrans já têm planos especiais para agir naquele espaço de acordo com a sua estrutura.

4. Segurança particular? Mas e a PM? E a Guarda Municipal? Aliás, Guarda Municipal Patrimonial, criada e preparada para proteger os patrimônios públicos! Será que o monumento foi depredado por inoperância da Guarda ou apenas por ter um evento na Praça? A idéia de contratar segurança particular é uma maneira da Prefeitura se eximir da responsabilidade de proteger os Monumentos Públicos e o cidadão. Não há uma justificativa plausível para tamanho desdém com o bem público, melhor deixar outro cuidar, já que não dão conta. Ah, e claro não podemos esquecer como isso onera qualquer evento.

5. Estes espaços também deveriam ser sugeridos e indicados pela Prefeitura, para que respeitassem os monumentos ao redor. Mas a prefeitura prefere terceirizar esta ação para se eximir da responsabilidade e de quebra criar mais um empecilho para a realização de eventos na Praça.

6. Mais adiante veremos que esta taxa é um cheque calção que pode ser devolvido. Mas a questão é a seguinte: cobrar para a utilização de um espaço público? Aliás, um espaço público construído para receber grandes eventos. A justificativa para que a Prefeitura fique com o caução é muito interessante: caso os organizadores do evento não dêem conta de realizar todas as exigências da PBH, o cheque é usado para pagar tais gastos.

7. A Superintendência de Limpeza Urbana não deveria fazer isso? Aliás, já não faz?

8. Ah, sim, a SLU já faz a limpeza.

A idéia de exigir a limpeza das vias públicas por uma empresa particular é mais uma forma de onerar a organização e impedir a realização de eventos.

Conclusão:

A PBH não quer que sejam realizados eventos de grande porte na Praça que foi projetada para tal uso.

No áudio da reunião do dia 22 de julho de 2010 Lacerda afirma que durante o ano de 2009 foram 56 eventos religiosos na Praça e estes fazem barulho e perturbam o Museu de Artes e Ofícios. Segundo o Prefeito não dá para ir ao museu com música na Praça.

Mas se o museu foi construído depois da Praça, se é um acervo particular em prédio público, porque tem prioridade sobre o espaço público?

Em BH o público vira privado de acordo com o financiado.

E ao final desta história há uma coisa brilhante. Se a PBH entender que o evento é de interesse público, ela paga tudo, cercamento, segurança, limpeza e etc… Mas quem decide o que é ou não de interesse público é o Prefeito, que se julga senhor absoluto dessas cercanias.

Aproveitamos para lhe garantir Prefeito: iremos acompanhar cada um de seus deslizes e até este decreto ser mudado com o fim do cercamento e da exigência de segurança particular em espaço público, e a garantia de manutenção e limpeza da Praça pela PBH, trataremos de divulgar as suas ações para mais belorizontinos.

Assim feito, temos certeza que não conseguirás reeleger sucessores.

Veja bem, o senhor reduziu a verba da Secretaria de parques e jardins em 2009 e agora, em 2010 uma árvore caiu sobre uma senhora no Parque Municipal, fato inédito na cidade e que demonstra o seu descaso com o lazer e bem estar do cidadão.

 

 

Ô abre valas que o Pato Donald quer passar

dezembro 27, 2010

Texto publicado originalmente no blog http://www.odisseianoespaco.wordpress.com, do Nuno Manna.

(BH, abril de 2010)

Quem chegasse nervoso, exigindo explicações pelas intervenções na orla da Lagoa da Pampulha para o evento que aconteceria no dia seguinte, seria desconcertado pela simpática recepção de Dona Valdete. A secretária da Regional Pampulha derreteria qualquer coração gelado com a gentileza encarnada em sua voz doce e sorriso delicado. Logo lhe ofereceria uma cadeira, uma água, um cafezinho, e um release que colocaria tudo em pratos limpos. Como lá constava, no sábado, dia 27 de março, a Pampulha abriria suas portas para uma homenagem da Nestlé a Belo Horizonte. A cidade receberia atividades voltadas às famílias mineiras, “promovendo ações de conscientização ambiental e conservação da área, apoiando projetos de melhoria e prestando serviço para a comunidade por meio de atividades de educação, lazer e entretenimento.” Para coroar o dia e encantar o público, entraria em cena a Parada Disney, um desfile que percorreria dois quilômetros da orla com carros alegóricos espalhando a magia da turma do Mickey Mouse. Diante de tamanha homenagem, o que significavam algumas árvores, quebra-molas e canteiros a menos?

A organização do evento vinha sofrendo uma série de críticas e reclamações, especialmente dos moradores da região que abrigaria o evento – formada em grande parte por bairros de vistosas mansões. Questionava-se sobretudo a escolha da orla da Lagoa da Pampulha, local irregular e estreito, com poucas vias para acesso e escoamento, e que exigiam tantas adaptações para cumprir as exigências do evento. Se a gentileza de Dona Valdete e o texto apaixonado do release não convencessem o reclamante, a Regional lançaria mão de seu curinga: João Gabriel, o assessor de comunicação.

De postura épica e com frases peremptórias na ponta da língua, João Gabriel já tem as respostas para todas as perguntas, antes mesmo que elas terminam de ser formuladas. “É um por cento da população de Minas Gerais que já teve condições de ir aos Estados Unidos e à Disney. E o restante que pode estar aqui amanhã com as crianças vendo o desfile de graça? Isso também tem que ver, né. É o lado bom da coisa. É por aí.” E golpeia antes que o acertem: “Todos os eventos aqui são contestados pela população rica, pelo pessoal de posse. Evento no Mineirão, evento no Mineirinho, eles contestam tudo. Eles não querem evento aqui. Querem que a Pampulha esteja livre pra eles. Entendeu? É isso.” Depois disso, João Gabriel dá uma aula mais que didática sobre a democracia e o espaço urbano: “A Pampulha é um local público. É público: não tem dono. É para o povo. Entendeu? Público. Então quem cuida disso é a prefeitura, através da Regional Pampulha. É isso.”

Para que não haja mal entendidos, João Gabriel justifica as intervenções na orla da Lagoa. Afirma que as árvores que foram arrancadas já estavam tombadas em decorrência de um vendaval que assolou a região alguns dias antes. O restante só teve que passar por uma poda básica, que também já seria feita mas que foi antecipada em função do evento. Ainda ficaram alguns galhos que insistiam em atrapalhar a passagem do cabeção do Buzz Lightyear, mas nada que alguns cabos de aço não resolveram. Já as lombadas, os fios, a rotatória, as placas de sinalização, os pedaços de calçada… é só tirar e pôr de novo. “Reconstruir o meio-fio é colocar terra e grama. Isso é a coisa mais fácil que tem. Entendeu? É por aí.”

A Secretária do Turismo do Estado de MG, Érica Drummond, jura que a Pampulha foi escolhida dentre várias opções por apresentar as características técnicas ideais. João Gabriel tem uma justificativa bem mais convincente: “Porque a Pampulha é linda. E o Mickey é um sonho. Uniu-se o sonho à beleza da Pampulha. Por isso. Mais nada.” E sobre como o evento conjuga suas atividades com valores como conscientização ambiental e conservação da área, João Gabriel é preciso: “Disso eu não sei não.” Talvez, por um deslize momentâneo, dona Valdete se esqueceu de lhe fazer uma cópia do release. Mas pra não deixar por menos, o assessor compensa: “Mas nós temos vários projetos pra melhorar a Pampulha.” Tipo quais? “Eu não posso falar, porque os projetos estão sendo escolhidos. O que se faz é recolher o lixo. E limpar a Pampulha. É isso.” Ah, bom.

Se depois de tantos argumentos, o reclamante insistisse na questão, João Gabriel usaria seus maiores dons para conquistá-lo: uma lição de vida – “Eu sou realizado na minha profissão. Já passei por muita coisa na vida. E de 1974 a 1985, não fui preso nem nada. Faço palestras aí nas escolas. Você pode olhar meu currículo. Não é com presunção não. É porque eu gosto de passar alguma coisa que eu aprendi. Isso me foi dado, assim, com muita beleza.” – e a poesia – “Vou te dar um livro meu pra você ler. Eu tenho 160 poemas sobre o amor”. De dentro de uma gaveta estrategicamente à mão, João Gabriel tira um livro preto que estampa na capa uma rosa vermelha contornada por um foco de luz em forma de coração. Em amarelo, o título: “Amor Total”. De dentro de um dos o’s, um cupido espreita com sua flecha.

Marcianos,
Marcianas,
Onde estão?
O que fazem
Nesse outro mundo?
Me expliquem
Por favor
Como praticam o amor
(…)
ET,
Homem e mulher
Para vocês
É tão complicado amar?
Imagino que não
Mas pergunto se tem
O mesmo sabor
Do nosso amor

Os trechos sutis e maravilhosos são de Amor ET. A coletânea traz ainda outras preciosidades a serem descobertas, como Amor supimpaAmor burroAmor pequiAmor talibãAmor no mato. Envolvendo seu interlocutor tão intensamente, João Gabriel apazigua qualquer tipo de amargura. Não se importa de receber tantas pessoas questionando sobre a Parada Disney. “Isso a gente tira de letra! Não tem dor de cabeça nenhuma.” E para mostrar seu desprendimento de questões mundanas, João Gabriel chama atenção para as coisas verdadeiramente valiosas na sua vida. “Se eu tivesse oportunidade de ir a  um desfile como esse nos EUA eu não iria. Eu não tenho atração por isso. Se fosse negócio de literatura, cultura… Eu não iria pra ver boneco da Disney. Não faz sentido. Mas criança iria. É pras crianças. Entendeu? É isso.” E tudo estaria bem. Ânimos apaziguados, o amor nos corações, árvores, lombadas, canteiros…fora do caminho, e a Bela Adormecida vigilante e a postos. Tudo sairia bem, não fosse pela ação daquelas que, ironicamente, eram o motivo de todo o evento e de quem menos se esperaria algum tipo de perturbação: as crianças.

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O início da Parada estava marcado para as quatro da tarde daquele sábado. Por volta do meio dia, a orla da Pampulha ainda estava tranqüila. O pessoal da staff do evento ainda recebia seus uniformes. Alguns estavam almoçando calmamente as marmitas que foram distribuídas, sentados sob as sobras das árvores. As primeiras crianças, com os pais mais precavidos, começavam a chegar.

Elas vinham com suas carinhas de santo, baínho tomado, cabelinho penteado e olhinhos arregalados. Santinhos do pau oco. Chegavam e logo se faziam em casa, correndo pra lá e pra cá, gritando, atazanando os distribuidores de brindes. Uma gangue de tatuados já se organizara. Enquanto uma especialista em carinha de dó chantageava para conseguir montes de papéis de tatuagem adesiva, um mais velho e chefe do bando se encarregava de pregar e molhar as estampas nas bochechas dos mais novos.

Havia bandeirinhas e orelhinhas de papel do Mickey para todos, o que não evitava a competição para ver quem tinha mais, ficava mais bonitinho e levantava mais alto sua bandeirinha. A admiração pelo camundongo maior era de menos. Não importava que seus ídolos agora sejam as Meninas Super Poderosas e os Backyardigans. Os interesseiros e deslumbrados balançavam suas bandeirinhas e gritavam levianamente o nome do símbolo da infância de seus pais: “Mickey! Mickey!”.

Tudo era espetáculo. Nem mesmo os brigadistas do Corpo de Bombeiros, preocupados com a segurança das pestinhas, estavam livres do assédio. Uma menina quis porque quis que seu pai tirasse uma foto sua com o moço uniformizado.

No meio da multidão, com preguiça de tentar chegar aos banheiros químicos, um despudorado de uns dois anos de idade resolveu fazer xixi ali mesmo, na frente de todos, debaixo de uma árvore. Nem mesmo os mais folgados foliões dos carnavais teriam tanto descaramento.

Espalhadas entre a Igreja de São Francisco e o Iate Club, os capetinhas estavam tão cheios de si que faziam pouquíssimo caso das curvas de Niemeyer, dos murais de Paulo Werneck e de Portinari, dos baixos-relevos de Alfredo Ceschiatti, dos jardins de Bourlle Marx. Sinal de uma geração que tem seu próprio e novo Centro Administrativo Presidente Tancredo Neves, e que não se impressiona com o que não tem 146 metros de vão suspenso.

Algum tempo depois, o estreito espaço reservado para o público (incluindo o que sobrou das calçadas e os jardins dianteiros das casas dos moradores) estava tomado por uma multidão de crianças. O cheiro de perfume e talquinho era tão inebriante que nem se sentia o cheiro da lagoa. O bando que arrastou seus pais para sair atrás do trio do Mickey tomava conta tão completamente do local que ninguém mais conseguia chegar até lá. Outros tantos meninos invejosos davam chiliques dentro dos carros e ônibus a quilômetros de distância presas nos engarrafamentos das avenidas da região.

Quando um apressadinho perguntou sobre a hora do início da Parada, um segurança respondeu que ela estava marcada para as quatro, mas que devia começar umas quatro e meia. Um colega de equipe que estava ao lado corrigiu em tom repreensivo: “Começa às quatro em ponto, rapá!” O primeiro justificou: “Essas coisas nunca começam na hora. Em quantos eventos você já trabalhou?” O segundo retrucou: “Mas isso aqui é evento internacional.” Novamente, o primeiro mostrou que tinha seus motivos: “O show do Guns ‘N Roses era internacional e atrasou duas horas!” Mas, aparentemente, o ursinho Pooh não demora tanto tempo para se vestir quanto Axl Rose. Às quatro horas o primeiro carro apontou.

Eram Donald e Margarida dentro de um calhambeque vermelho. As crianças enlouquecidas soltavam berros agudos e ensurdecedores, mais histéricas que adolescentes no cinema assistindo a Crepúsculo e que mulheres de meia idade ouvindo Eduardo Suplicy interpretando Racionais MC’s. Nem repararam que o carro de Donald era uma réplica do Chevy 1933 Coupe, com motor 2.3, cinco marchas e direção hidráulica, produzido artesanalmente por uma equipe supervisionada por Emerson Fittipaldi, inspirado no calhambeque do Rei Roberto Carlos. Elas só queriam saber do casal de patos.

Foram quarenta minutos de Pequena Sereia, Peter Pan, Mogli, Branca de Neve e os Sete Anões… Mas a magia não era o suficiente para evitar o verdadeiro caos estava para começar. O castelo mágico da Disney começou a desabar quando uma menina maldosa de uns 8 anos revelou ao irmão mais novo: “O Mickey de verdade ficou na casa dele. Ele só mandou um representante.” Ela descobrira que, apesar de ser supervisionada pela Disney, a Parada era formada por atores brasileiros, não se tratando da original. O menino ficou desolado. A notícia correu rapidamente a multidão. Revoltadas, as crianças jogavam suas bandeirinhas e orelhinhas no chão, usando de desculpa a falta de cestas de lixo, deixando o local imundo. Muitas se rebelaram e se soltaram dos pais, fugindo muvuca adentro.

O evento que se preparara para receber 100 mil pessoas, teve um público estimado de mais de 200 mil – enquanto um Mineirão ali ao lado, lotado em dia de jogo, recebe 60 mil pagantes. E se outras milhares de pessoas ficaram presas no trânsito tentando chegar e ocupar o disputado espaço no trajeto do desfile, as que conseguiram (ou pelo menos tentaram) receber um tchauzinho da Sininho não podiam sair de lá. Eram 200 mil pessoas presas no mundo encantado. No mar de gente congestionado na orla via-se crianças chorando, pais enfurecidos, carrinhos de bebês sendo carregados por cima da multidão, mãe sentada no chão amamentando. O que não faltou foi criança perdida e desidratada pelo calor e sede.

Às oito da noite os carros e ônibus ainda tentavam sair do lugar. A Calourada da UFMG que acontecia no centro esportivo logo ao lado contribuía para obstruir as saídas e represar a multidão. Os mais dispostos já haviam conseguido andar alguns quilômetros para tentar um ponto de ônibus livre. Algumas das crianças, as mais perseverantes, ainda caminhavam usando suas orelhinhas de camundongo.

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No início da semana seguinte, a Secretária do Turismo de MG estava satisfeita com o teste da área de Belo Horizonte que vai abrigar jogos da Copa do Mundo em 2014. “Essa vivência de organização de grandes eventos é importante pra BH. Foi o maior evento que BH já recebeu. E vimos que foi um sucesso. Foi pra quem quer ver desenvolvimento, entretenimento, atrativo turístico para todos. Não teve um acidente. Todo mundo caminhando devagar, sem correria. Se eu pudesse e se houvesse interesse do setor privado, repetiria o evento semana que vem. É BH se inserindo no contexto dos grandes eventos.”

A Secretária também avalia positivamente a estrutura mínima que foi necessária para realizar o desfile, e mostra como Belo Horizonte é uma cidade privilegiada. “Em cidades maiores, todo o trânsito é modificado pra que se tenha um grande evento.” E sobre os problemas de acomodação e deslocamento do público, ela deixa sua mea culpa: “Não imaginamos 200 mil pessoas. Se eu soubesse talvez eu teria ido às rádios, interditado as vias indo e voltando. A organização dá jeito pra tudo.” Mas mostra que não é de todo culpada: “O que não pode, também, é o público achar que pode sair de casa só uma hora antes e sair vinte minutos depois que acabou. O belorizontino não está acostumado. É uma falta de experiência do público e de eu que organizei. Agora já temos essa expertise.” Falou ainda sobre os efeitos do evento para o local: “As intervenções foram muito pequenas para um evento tão grande. E três, quatro horas depois, a Pampulha estava impecável.” O tapete de papel picado colorido deixado na rua certamente era um presente para os que correram por lá na maratona do dia seguinte.

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Nem todos puderam prestigiar o evento, por motivos diversos que não o da saturação do espaço da Pampulha. No momento em que o Pato Donald engatava a primeira em seu calhambeque rumo à glória, o governador Aécio Neves sorria para uma foto em Teófilo Otoni, homenageado pelo apoio às regiões mais pobres do Estado; o prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda estava em viagem a Bogotá, tendo lições sobre sistemas de transporte de massa; um grupo de cerca de 150 pessoas partia em marcha para a sede da prefeitura em protesto contra cortes no orçamento para a cultura, o cancelamento de grandes eventos de cunho cultural na cidade e o decreto do prefeito (“…considerando a dificuldade em limitar o número de pessoas e garantir a segurança pública decorrente da concentração e, ainda, da depredação do patrimônio público…”) proibindo eventos “de qualquer natureza” na Praça da Estação, uma das maiores praças da cidade; o assessor/poeta João Gabriel estava em casa, se compadecendo com sua mulher que machucara o pé; o filho de seis anos de João Gabriel, menino compreensível que é, não se importou com a perda da passagem do Pateta.

Anastasia e o chavismo que no dos outros (quer dizer, no dos mineiros) é refresco

dezembro 18, 2010

Procê ver como a imprensa brasileira é uma coisa especial. Hugo Chavez e Antônio Anastasia tomam a mesma medida: decidem pular o legislativo e fazer as leis eles mesmos.

Segundo a imprensa brasileira, na Venezuela isso é terrível,  atentado à democracia, digno de repúdio na capa dos jornais.

Já em Minas? TOTALMENTE NORMAL E ACEITÁVEL! Bonito, até! Vale uma notinha de rodapé e olhe lá!

Essa é a imprensa brasileira, turminha. Minas Gerais caminha para ganhar o título de Novo Pará: Terra sem lei onde os que tem grana e poder fazem o que querem, enquanto a imprensa só se movimenta pra bater em pobre.

Articulação final (7/11) – Curso de manejo de SEMENTES CRIOULAS em BH – 4 e 5/12/10

novembro 5, 2010

Foto: Roger Smith sob licença Creative Commons

É com muita saúde e liberdade que escrevemos essa convocação. Ela é referente ao curso de manejo de sementes crioulas e temáticas envolvidas, que irá acontecer nos dias 4 e 5 de dezembro, em Belo Horizonte/MG.

Nas andanças pelo mundo se monta um quebra-cabeça;

Essa convocação se faz devido a visita de dois membros de um instituto de preservação de sementes orgânicas crioulas localizado na França (http://www.kokopelli-seed-foundation.com/), que virão para o Brasil em dezembro compartilhar os conhecimentos que têm e suas experiências de sucesso no manejo, plantio, cultivo e conservação de sementes crioulas. O casal estará presente, nos dias 4 e 5 de dezembro, em Belo Horizonte/MG, para a realização do mesmo. Dentre as temáticas que eles sugerem abordar no curso, estão: definição de variedades; de variedades que crescem naturalmente até uma seleção mais ou menos restritiva, passando por sementes híbridas, clones e transgênicos; como fazer uma seleção sem alterar as variedades? como produzir sementes? a vida do solo: a chave para qualquer tipo de vida na terra; dentre outras.

Esse encontro está sendo planejado desde o fim de julho, começo de agosto, resultado do intercâmbio de conhecimentos realizado em encontros envolvendo a temática. Desde então, uma lista de discussão foi criada, e grupos e indivíduos tem se engajado, em BH e em outras cidades, para realizarem essa atividade.

Em BH, a certeza é sobre a data do curso: 4 e 5 de dezembro de 2010, datas em que o casal estará presencialmente em Belo Horizonte, para que possamos partilhar o que sabemos a respeito das sementes crioulas.

No entanto, outra série de questões precisam ser discutidas e, pensando numa forma horizontal, não-hierárquica e autogerida dos processos de educação, cultura e socialização, essa convocação tem como objetivo primordial a DIVULGAÇÃO DE UMA REUNIÃO PARA ARTICULARMOS O CURSO.

ESSA REUNIÃO ACONTECERÁ NA CASA SOMÁTICA, NO DIA 7 DE NOVEMBRO, ÀS 17:00 HORAS, EM BELO HORIZONTE, SEGUE O ENDEREÇO:

RUA ELZA, 220, SUZANA, BH/MG.
CEP 31260-530

(ONIBUS 5031 OU METRÔ DA ESTAÇÃO SÃO GABRIEL, PROXIMO DO VIADUTO DO ANEL ROD. SOBRE A AV. CRISTIANO MACHADO)

Algumas questões a algum tempo já estão sendo discutidas e segue um panorama sobre o que já foi pensado, que, é claro, serão o norte da discussão que acontecerá no domingo.

Para o curso:

– Escolher locais:

A localização do curso é temática abordada. A necessidade de locais para a realização do curso em BH se faz necessária pois o casal estará presencialmente na cidade, e considerando o caráter (in)felizmente “centralizador” urbano, a proposta é que grupos interessados se articulem para enviar representantes e participarem do curso. Como o casal ainda passará por outras cidades e a possibilidade de se deslocarem além dos locais do curso é mínima, fica o critério inicial de que serão necessários locais, preferencialmente em BH, para que o curso aconteça. A casa somática (www.casasomatica.tk ) é um espaço autogerido onde existem indivíduos interessados na temática e espaço para alguma articulação (Um dos responsáveis por ajudar na articulação do curso a nível França-Brasil, visitou o local e acredita na possibilidade que o encontro aconteça lá). Logo, a reunião será convocada para lá, mas nada impede que outros locais se ofereçam para sediarem 1, 2 ou mais dias do curso, observando, obviamente, a demanda apresentada. Outra idéia que pensamos em articular é um momento que ocorra na Universidade Federal de Minas Gerais, com o objetivo de dar visibilidade à temática, ao trabalho dos grupos presentes e despertar para a necessidade de diálogo de saberes.

– Escolher sementes a receber:

Quem semeia colhe, então, foram-nos ofertadas várias sementes crioulas do Instituto kokopelli. A principal pergunta a ser feita é QUAIS SERÃO? Pois o Instituto possui um catálogo com uma diversidade enorme de sementes, e precisamos pensar o que será solicitado. Existe um catálogo/manual impresso disponível para consulta na biblioteca da casa somática, o que deverá ajudar a nossa escolha.

– Definir critérios de participação/seleção/inscrição dentro das limitações de espaço e público:

A idéia é grande, mas o espaço pode ser pequeno. Então, o que temos tentado pensar é quem e como será definida a participação de cada umx no curso, possibilitando que os grupos e indivíduos interessados se manifestem, a fim de que possam ensinar, aprender e socializar esses conhecimentos, gerando uma rede interessada e engajada na temática. A limitação de coro inicial está entre 40 participantes, critério esse sugerido pelo casal que virá.

– Definir outras atividades para acontecer:

“Ninguém sabe nada”, e é por isso que temos pensado que também podemos mostrar aquilo que conhecemos. Existe a possibilidade que o casal chegue cerca de 5 a 7 dias antes do acontecimento do curso (4 e 5/12), o que nos daria fim de novembro e início de dezembro para pensarmos atividades acerca da temática das sementes crioulas, agricultura orgânica, alimentação orgânica, biodiversidade, meio ambiente, ecologia, permacultura… que estejamos dispostos a desenvolver. Pensando nisso, também é possível que aumentemos o número de participantes (pois outras coisas podem ter um coro maior). Alguém se candidata?

Para a divulgação:

– Fazer a divulgação e entrar em contato com os possíveis indivíduos, movimentos e grupos interessadxs:

A convocação que está sendo feita agora é uma delas. Ajude-nos a espalhar essa notícia, pois a preservação da riqueza da biodiversidade pode ser de interesse de muita gente. Na reunião, serão decididas outras medidas possíveis/cabíveis para a divulgação do evento.

– Alojamento, higiene e alimentação:

Precisamos definir e criar condições para hospedagem de visitantes em BH. A casa somática está disponível como um espaço para que isso aconteça, mas, provavelmente, ela não dará conta de toda a demanda, logo, precisamos de alojamentos voluntários.

Higiene diz respeito a como autogerirmos o processo de limpeza e manutenção dos espaços que utilizarmos. Para assumirmos nossas responsabilidades e não terceirizarmos nada do que diz respeito ao impacto que geramos no local onde estamos.

Alimentação é fundamental. Logo, pensemos como oferecer alimentação para a quantidade de pessoas que participarão, os possíveis custos que isso vai gerar. Na casa somática a alimentação é vegetariana (temos um contrato informal com um sacolão onde recebemos algum excedente, sem custos, para nos alimentarmos) e tem fogão a lenha, o que eliminaria alguns custos, e a horta orgânica deve fornecer alguma coisa até lá. Mas, em compensação, precisamos de pratos, copos, panelas e outros, além de sabermos que cozinhar dá trabalho e se tod@s vão comer, tod@s podem se envolver no processo.

– Recursos materiais:

Ver os possíveis recursos materiais que serão necessários.

– Financeiro:
Se o conhecimento não pode ser quantificado em cifrões, precisamos encontrar meios de subsidiar os eventuais custos gerados, lembrando que a impossibilidade financeira não deverá ser fator limitante do acesso de nenhum individuo ao curso.

Essas e outras questões serão discutidas, reitero, na casa somática (www.casasomatica.tk )

NO DIA 7 DE NOVEMBRO, ÀS 17:00 HORAS, EM BELO HORIZONTE, SEGUE O ENDEREÇO:

RUA ELZA, 220, SUZANA, BH/MG.
CEP 31260-530

(ONIBUS 5031 OU METRÔ DA ESTAÇÃO SÃO GABRIEL, PROXIMO DO VIADUTO DO ANEL ROD. SOBRE A AV. CRISTIANO MACHADO)

Que possamos realizar um ótimo evento, junt@s, catalizando o potencial de tod@s @s seres e coisas.

Paz!

Atenciosamente;
Grupo das Minas.

Brasil: Multidões fazem Praia numa Cidade de Montanha

junho 5, 2010
Este post foi originalmente publicado no website GLOBAL VOICES em Inglês a 4 de Junho de 2010, com versão em Português adicionada a 5 de Junho de 2010.

Quando no final do ano passado, a prefeitura de Belo Horizonte publicou um decreto proibindo eventos de qualquer natureza numa das praças mais populares da cidade, certamente não esperava trazer “vida de praia” a uma cidade nas montanhas do interior brasileiro.

Belo Horizonte é a cidade capital do estado de Minas Gerais na região sudeste do Brasil. Longe da costa, rodeada de montanhas, a cidade tem uma vida cultural vibrante com espaço para todas as sub-culturas e contra-culturas co-existirem e se expressarem em várias ocasiões prazeirosas. Praça da Estação é um dos lugares mais populares proporcionando tais encontros.

Fotografia: João Perdigão

Foi aqui que a cidade nasceu literalmente, pois é aqui o local da velha estação central, que servia de “porto de entrada” para pessoas e materiais durante a construção de Belo Horizonte no final do século XIX. A ferrovia ainda é usada por quem chega das regiões oeste e norte da cidade, e possui uma linha até à cidade de Vitória, capital do estado vizinho Espírito Santo. O velho edifício da estação foi transformado no Museu de Artes e Ofícios trazendo turistas ao centro da cidade. A enorme praça em frente da estação foi renovada nos últimos anos e até possui duas convidativas fontes construídas ao nível do chão da praça para poderem ser desligadas quando de grandes aglomerações. Praça da Estação é também o ponto de partida da Bicicletada de Belo Horizonte, e o principal ponto do popular festival anual Arraial de Belô, assim como outros shows ao vivo e eventos variados que iluminam a vida social dos Belorizontinos. Ou era?

Em Dezembro último, num decreto publicado pelo Prefeito da cidade, a praça ficou condenada a se tornar num espaço vazio com base na necessidade de garantir a segurança pública, manter aglomerações no minimo e preservar o patrimonio público. Imediatamente, a decisão encontrou forte oposição dos cidadãos, para quem a praça é parte essencial da vida cultural da cidade e que, com seus impostos, contribuíram para a sua renovação. Blogueiros discutiram a nova lei, pondo a possibilidade de que o decreto seja um passo no caminho para a gentrificação, em preparação para os jogos olímpicos de 2014.

Um protesto chamado Vá de Branco tomou lugar a 7 de janeiro, juntando cerca de 50 pessoas que procuravam respostas:

Porque a Secretaria de Segurança Patrimonial não propôs um debate com a população sobre a depredação na Praça da Estação?
Porque os eventos foram proibidos na Praça da Estação e não na Praça do Papa?
Porque poucas pessoas entram no Museu de Artes e Ofícios que fica na Praça da Estação?
Qual é o maior espaço central para eventos gratuitos em Belo Horizonte? Quais foram as depredações dos últimos eventos?

Neste encontro ficou assente a necessidade de iniciar um movimento de raízes populares, não partidário e a favor de uma cultura local e gratuita. E das discussões que se seguiram, uma nova ideia nasceu: encontros na praça aos sabádos, com pic-nic, bebidas, bikini e calção, toalhas, chapéus, tambores e guitarras. Em resumo, fazer da praça uma praia na cidade. Uma ideia espalhada pelas redes sociais cibernáuticas e posta em prática por cidadãos locais.

Fotografia: Luiz Navarro

Desde então, a Praia da Estação tornou-se paragem obrigatória nos circuitos rotineiro de sábado dos perambulantes urbanos. Um protesto tranquilo, com humor e no entanto assertivo, um ato de desobediência civil que faz as delícias de vendedores de rua e bares à volta da praça. As fontes, que normalmente são ligadas às 11h e 17h em ponto, permanecem estranhamente fechadas aos sábados, mas os manifestantes ocasionalmente fazem uma coleta e pagam para que um camião-pipa venha dar umas mangueiradas na multidão.

Outras tentativas para agitar a Praia da Estação foram os Eventões, uma chamada à população para trazer “eventos de qualquer natureza” a uma praça onde supostamente estes foram proibidos. Os Eventões juntaram centenas de pessoas e causaram alguma tensão quando a polícia interveio para não deixar o povo instalar sistemas de som. O primeiro Eventão acabou com os “veraneantes” ocupando a estrada e bloqueando o trânsito, até chegar no também popular Viaduto, a apenas alguns quarteirões da praça, bem conhecido como o local do Duelo de MCs de Belo Horizonte todas as sextas à noite.

O blog aberto Praça Livre BH tornou-se mais do que um mero informativo de todos os acontecimentos na praia. O seu foco foi ampliado a temas de gentrificação, despejos e ocupações, oferecendo solidariedade a outros movimentos populares no Brasil, como o dos estudantes de Florianópolis, que lutam por transporte público grátis. E alguns dos veraneantes que protestam relaxadamente ao sábado, levam as coisas bem a sério durante a semana, participando em audiências públicas na Prefeitura. A primeira aconteceu a 24 de março e apesar da ausência de altos membros do poder local – como o Prefeito Márcio Lacerda, o presidente da fundação para a cultura local Taís Pimentel, o secretário de administração local Fernando Cabral, e o presidente da Belotur (companhia de turismo da cidade) Júlio Pires – os manifestantes puderam articular suas preocupações em relação aos usos dados a espaços públicos pagos com dinheiros públicos, à chefe do gabinete regional Ângela Maria Ferreira que representava os mencionados representantes de poder público local. Foram por ela assegurados que a situação era temporária.

Finalmente a 4 de maio, o decreto foi revogado. Mas com uma alteração. Eventos na praça estão agora sujeitos a uma taxa minima de R$9000, o que só permitirá eventos financiados pelo setor privado:

Tal medida materializada pelos decretos 13.960 e 13.961 e editada na ultima terça-feira 4 de maio,  pretende dar aos espaços públicos o mesmo tratamento dos “salões de festa”, pode?

E assim, parece agora que a praça irá receber a copa virtual patrocinada pela coca-cola. Barraquinhas de comes e bebes, banheiros quimicos, écrans gigantes, segurança e as inevitáveis bilhetes pagos tomarão conta da praça, e intensifica-se a discussão à volta dos usos a ela dados pela Prefeitura. Os cidadãos se perguntam agora se é este o futuro de seus espaços públicos: controlar quem tem acesso à praça e cobrar por isso.

Essas intervenções se definem por moldes dos velhos projetos característicos de todas as modernas cidades erguidas sob os pressupostos unitários do capitalismo: limpeza de aspecto fundamentalmente classista, projetos infra-estruturais de custos estratosféricos, restauração de pontos turísticos e outros.

Tais preocupações vão ao encontro dos debates atuais pelo mundo fora relativamente à função dos espaços urbanos. Em anticipação do próximo campeonato do mundo de futebol em 2014, que ocorrerá no Brasil, e os Jogos Olímpicos que terão lugar no Rio de Janeiro em 2016, os cidadãos começam agora a ver os primeiros sinais de uma política pública de gentrificação, importada do exterior como parte da tendência global do poder para aumentar o controle exercido sobre a população mundial. No Brasil, tais preocupações já se fazem sentir e são denunciadas em várias cidades, particularmente no Rio e São Paulo.

Invariavelmente, as olimpíadas dão início a uma blitzkrieg contra pobres e moradores de rua, criando um verdadeiro estado de exceção. Zonas da cidade são praticamente fechadas a quem não tiver ingresso, as ruas são socialmente higienizadas e a polícia passa a agir com truculência animalesca contra os não convidados para a festança de gringo que vamos montar.

Assim, apesar de não haver espaço na praça para a toalha de um amante de praia durante a próxima copa, o Movimento Praça Livre continua a luta para libertar os espaços públicos, e pergunta no seu blog, se o novo decreto cairá como aquele que veio revogar. A resposta assenta em ação popular e a pergunta passa a ser: até onde crescerá este movimento e quantos mais como ele surgirão no Brasil durante a próxima década.

Praia da Estação sábado dia 08/05/2010

maio 14, 2010


Como todos já sabem, a praia da estação é um sucesso.
No último sábado tivemos o prazer de receber os amigos da Marcha da Maconha, um grupo de ativistas globais que lutam pela legalização da maconha.
O evento tomou proporções inesperadas.
Confira foto do google maps durante o evento do último sábado, dia 08/05/2010.

Se prepare para o próximo sábado. Traga sua cadeira de praia, a canga, a boia, e muita energia positiva.

Márcio Lacerda!
Até o GOOGLE diz que A PRAÇA É NOSSA!