O dono do Iate

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Fonte: http://arrumaestabaguncaastrogildo.wordpress.com/
esportes náuticos na lagoa da pampulha

esportes náuticos na lagoa da pampulha

Marcio Lacerda é um incompreendido. Eu, pelo menos, sempre tive alguma dificuldade para compreender de onde ele tirava estas medidas esquisitas, arbitrárias, uma coisa meio Jânio Quadros de ser. Mas acho que agora eu entendi tudo. Ou pelo menos alguma coisa, ou pelo menos uma parte da coisa.

A coisa me surgiu como um estalo quando vi esta entrevista, que mais parece um relatório técnico, do engravatado prefeito no jornal dos Medioli diário oficial do governo. Se você também sempre se perguntou que tipo de política costurava aqueles decretos arbitrários de sitiar praças, perseguir hippies e skatistas, fechar parques, vender ruas, despejar de suas casas milhares de pessoas pelo bem da especulação imobiliária; se você também queria saber quais desejos profundos motivavam esta comédia de erros, acho que posso ter encontrado uma pista. Aí nesta entrevista, debaixo de todas aquelas cifras e cronogramas, está a narrativa do que, de fato, move todos os desejos do Marcinho.

Prestem atenção.

Ele começa a entrevista pelo tal Portal Sul, obra de sei lá quantos milhões de reais para desafogar o trânsito de quem vem de Nova Lima para Belo Horizonte. É a prefeitura de Belo Horizonte investindo no melhor para a mais alta burguesia da cidade, ou melhor, para a mais alta burguesia da outra cidade, afinal é em Nova Lima, a Versalhes pão de queijo, que eles pagam seus impostos e estacionam seus carrões. Aquelas vilas medievais, muradas e vigiadas por seguranças particulares.

A narrativa segue pela Savassi, outra obra milionária, em região nobre e preparada para receber os gringos da Copa, comenta a Pedro I, pra não falar que esqueceu, e deságua na Pampulha.

Bellory Hills
Bellory Hills

A Pampulha em si é um símbolo da aristocracia belorizontina. Tem algo mais a cara da aristocracia mineira que fazer um lago só para ter um iate? Idéia das mais jecas que JK saiu decalcando por onde pôde. As Obras da Pampulha são eternas, um eterno escoadouro de dinheiro público, cota socializada de um clube da aristocracia mineira. Serão mais 20 milhões por ano para controlar o assoreamento da lagoa. Mas Lacerda garante: “No mais tardar, na Copa, queremos a Lagoa da Pampulha no nível 3, para pesca e esportes náuticos sem muito contato com a água. Ainda não será para banhistas, que é o nível 2.” Ai, a Copa! Sempre ela! Claro que achei irônico que ele excluísse os banhistas, mas é implicância minha, eu sei. Mas… peraí, que papo é este de “esportes náuticos sem muito contato com a água”? Que vai rolar na Pampulha, corrida de veleiros? Corrida de lanchas?

Já percebeu onde quero chegar? Ou melhor, já percebeu onde o Lacerda queria chegar quando decidiu pedir pros compadres um apadrinhamento para se tornar prefeito e Belo Horizonte? Ele é loooouco com um iate.

Gente, tudo que o Lacerda sempre quis foi sair de carro da sua mansão no condomínio fechado onde mora no caminho para Nova Lima, não pegar nenhum trânsito, atravessar uma Savassi bonitinha, passar bem rápido por uma Antônio Carlos duplicada, já que não tem nada de bom pra ver na zona norte mesmo, e chegar com antecedência para sua corrida de veleiros na Pampulha. Já consigo imaginar sua cara de felicidade, de óculos escuros, puxando seu veleiro pelas palmeiras da Antônio Carlos, ex-governador ao lado, travado às 10 da manhã.

mordendo a orelha!
mordendo a orelha!

Daí a importância dos despejos: é preciso retirar tudo que não se encaixe no visual Bellory Hills que a pleiboizada jeca que comanda esta cidade tem planejado. Expulsam os pobres para cada vez mais longe da cidade, de preferência para outras cidades, abrem espaço para uma especulação imobiliária irresponsável, privilegiam obras para transporte motorizado individual, os carros, deixando cada vez mais precarizado o transporte dos moradores de periferia, aqueles expulsos dos centros.

Mas moradores de rua, skatistas, hippies, vendedores ambulantes, trabalhadores e vagabundos, tipos que se recusam a se deixar levar e reinventam um centro vivo no dia a dia, marcam cada metro da cidade em seus corpos, se recusam a partir. Daí as medidas “higiênicas”, fascistizantes. Daí o prefeito dizer que “é preciso uma campanha para que não distribuam comida” para os moradores e rua, e declarar em alto e bom som que criou “um critério em que o morador de rua não pode se estabelecer na via. Ele pode, no máximo, ficar com o cobertor. A prefeitura tem a obrigação e o direito de recolher todos os utensílios que ele estiver carregando. A prefeitura não pode arrastar a pessoa do local”.

Criou um critério“? Do que este cara pensa que está falando? Completamente coerente, Lacerda, stalinista na juventude e empresário milionário na velhice, assume que a expropriação dos mais pobres é dever do poder público. A propriedade das empresas de especulação imobiliária, no entanto, continua sagrada.

3 Respostas to “O dono do Iate”

  1. fontinatti@yahoo.com.br Says:

    bão demais seu texto.

  2. fontinatti@yahoo.com.br Says:

    O milionário prefeito socialista é um sintoma.

  3. jolly Says:

    kkkkkk… ótimo texto.

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