Na selva de pedra, não se pode morrer na natureza?

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“Após morte, prefeito decide interditar Parque Municipal de Belo Horizonte” (Via Comercial)

 

 

“Uma mulher morreu depois de ser atingida por uma árvore de grande porte, na manhã desta quarta-feira, dentro do Parque Municipal, no Centro de Belo Horizonte. O acidente aconteceu na entrada da Alameda Ezequiel Dias, quando a vítima fazia caminhada no parque. Um grupo percebeu que a árvore estava caindo e avisou a mulher. Ela tentou correr, mas foi atingida pelo tronco do jatobá de aproximadamente 20 metros.” (Estado de Minas)

 

Não existe nenhum mistério em dizer que a única certeza que carregamos nessa vida é a de que vamos morrer. Mas, muito pouco tem se discutido a respeito das possibilidades reais que nos são oferecidas de morte na cidade.

Dentre elas, podemos citar assassinad@s, “suicidad@s”, envenenad@s (seja letalmente ou lentamente com a poluição que nos rodeia),  abortad@s, e a lista de hipóteses a qual me refiro não termina por aqui. Muito pelo contrário, para mim e meus companheir@s de caminhada (talvez tão companheir@s quanto a mulher que um dia caminhou felizmente no parque municipal), a morte começa com a CIDADE.

Ora, por que? Talvez porque nosso egocentrismo seja a razão da morte da própria vida em sua totalidade. Não é de hoje que critico, assim como muit@s que escrevem aqui, das obras faraônicas do deserto que está se tornando Belo Horizonte por conta da troca de nosso ouro por espelhos e quinquilharias importadas “Made in China, EUA ou qualquer outra superpotência da escravidão mundial”.

O ouro de que falo, talvez não brilhe tanto quanto aquele mineral tão valioso para aqueles que acham que dinheiro vale tudo – Permitam-me aqui ressuscitar a magia da vida e gerar uma alquimia com as palavras – falo daquele ouro que pode e tem todas as cores do arco-iris, a NATUREZA. E os espelhos e quinquilharias de que falo são nada mais nada menos que o ouro mineral que para alguns vale tanto quanto notas de dólare$, euro$ ou (ir)reai$.

É isso que estamos usando como moeda de troca, abrindo mão do conforto e da naturalidade de nosso arco-iris em troca do cinza high tech feito para copas do mundo que talvez pouco se interessam em preservar o meio ambiente, os ciclos orgânicos e as culturas não-hegemônicas tão diferente e tão igual a de noss@s indi@s e negr@s nesses 5 séculos e pouco de escravidão.

Pode parecer balela o que digo, fazendo uma correlação entre a morte acidental, ou melhor, natural, pois diria que há mais naturalidade em morrer esmagad@ por uma árvore do que por carros, concreto ou outra coisa monótona ou sem vida, da senhora que faleceu dessa maneira no Parque Municipal, um dos únicos pontos onde ainda HÁ VIDA NO CENTRO DA CIDADE. Como amig@ das praças muito pouco arborizadas, não deixo de me indignar com o fechamento do Parque Municipal de Belo Horizonte que só ” (…) reabre em abril.” (Hoje em dia), porque o tão conhecido “colonizador burguês” Márcio la(…) merdou mais uma vez dizendo que “uma força-tarefa seja formada para investigar a situação das 3.700 árvores da área. Não há ainda informações sobre os órgãos que irão compor esse grupo nem quanto tempo será necessário para concluir o mapeamento das espécies e adotar as medidas necessárias para garantir segurança à população.” (Via Comercial)

 

E o que dizer da morte NATURAL da ÁRVORE em questão, ou dos outros seres vivos, ou infinitas mortes de Homo “sapiens”? que vemos todos os dias nos espaços cimentados da capital? Porque eles não ganham noticia trágica e nem fazem parar as principais vias de tráfego de Belo Horizonte quando alguem morre, por exemplo, numa porrada de frente, entre ônibus e gente? Porque o corpo de bombeiros, a prefeitura e orgãos (in)competentes não mandam interditar, por tempo indeterminado, as BR’s, avenidas e ruas sob sua jurisdição e responsabilidade no que diz respeito a SEGURANÇA quando alguem morre nelas?

 

ENTÃO, PORQUE INTERDITAR O NOSSO PARQUE?

 

Faço aqui um manifesto em defesa da natureza exuberante e certamente muito mais segura e viva que qualque obra que o egocentrismo das mãos humanas já produzida. E se alguém morreu por causa dela, tenho plena certeza que deve estar descansando em paz, diferente de mim, que desejaria poder fugir ao menos um pouco do caos da vida no centro de BH me embrenhando e deitando para um suave cochilo ou prazerosa e menos arriscada (comparada a uma rua ou calçada urbana) caminhada na mata preservada que me permite respirar ar mais puro, ver cores mais vivas e beber águas mais limpas nos meus intervalos de escravidão moderna como trabalhadorx, estudante, e antes de tudo como SER (e não TER) human@, coisa comum a qualquer umx que está lendo esse manifesto.

 

Celebremos a vida e a morte da cidade, e tenhamos ciência ou fé de até quando estamos ajudando ou atrapalhando a naturalidade cíclica pela qual elas acontecem.

 

“Boulevard arrudas” não foi só o começo, e a interdição do parque não será o fim. Abaixo os colonizadores! sejamos nós, noss@s propri@s CACIQUES nessa selva.

 

I JUCA-PIRAMA (Gonçalves Dias)

(fragmentos)

IV

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi.

 

Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci:

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

 

Já vi cruas brigas,

De tribos imigas,

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces

Senti pelas faces

Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.

 

Andei longes terras,

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aimorés;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes — escravos!

De estranhos ignavos

Calcados aos pés.

 

E os campos talados,

E os arcos quebrados,

E os piagas coitados

Já sem maracás;

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinham traidores,

Com mostras de paz.

 

Aos golpes do imigo

Meu último amigo,

Sem lar, sem abrigo

Caiu junto a mil

Com plácido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo desgosto

Comigo sofri.

 

Meu pai a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por ínvios caminhos,

Cobertos d’espinhos

Chegamos aqui!

 

O velho no em tanto

Sofrendo já tanto

De fome e quebranto,

Só qu’ria morrer!

Não mais me contenho,

Nas matas me embrenho,

Das frechas que tenho

Me quero valer.

 

Então, forasteiro,

Caí prisioneiro

De um troço guerreiro

Com que me encontrei:

O cru desasossego

Do pai fraco e cego,

Em quanto não chego,

Qual seja, — dizei!

 

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deus lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descansava,

Que filho lhe sou.

Ao velho coitado

De penas ralado,

Já cego e quebrado,

Que resta? —Morrer.

Em quanto descreve

O giro tão breve

Da vida que teve,

Deixai-me viver!

 

Não vil, não ignavo,

Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo:

Aqui virei ter.

Guerreiros, não coro

Do pranto que choro;

Se a vida deploro,

Também sei morrer.

 

 

 

 

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4 Respostas to “Na selva de pedra, não se pode morrer na natureza?”

  1. Luiz Carlos Garrocho Says:

    Acho esse argumento irresponsável. Já discuti com outra “manifestação verde”, no blog Deslocamentos. Fiz um comentário lá.

    Reclamar sem conhecimento de causa dá nisso: desvaloriza qualquer modalidade de crítica e de resistência.

    E o que mais me impressiona nisso tudo é a total desconsideração com a vida humana!

    Chegaremos, por essas vias, a um “fascismo verde”!

    Meus argumentos estão lá, num comentário que fiz no blog do Antônio Carlos: http://deslocamentos.wordpress.com/2011/02/12/arvores-ameacadas-de-corte-no-parque-municipal/#comments

  2. Dereco Says:

    O que mais me incomoda nessa história toda, na verdade, é pensar que a PBH não é capaz de fazer o controle das árvores dos parques da cidade. Claro, controle total além de ser uma mentira não é tão desejável assim. Mas pensemos, não deve ser muito difícil para uma equipe qualificada, trabalhando todos os dias, acompanhar a saúde das árvores mais velhas da cidade e tomar as providências cabíveis nos casos críticos. Isso, eu creio, não evitaria a queda acidental de uma ou outra árvore de vez em quando – e isto é super natural natural -, mas reduziria estatísticas de morte por queda de árvore na cidade, o que é desejável. Será que eu tô viajando? Será que em outros lugares do mundo, e até mesmo do Brasil, os parques fecham por meses cada vez que alguém tem a infelicidade de morrer esmagado por uma árvore?

  3. Anônimo Says:

    A grande questão que entendi colocada é que o parque vai ficar fechado por mais de meses por conta de um plano de trabalho que ao que me parece é tratado com descaso pela PBH, e talvez interpretar toda colocação como fascismo soe muito reacionário, como a atitude de fechar um parque porque alguem morreu dentro dele. Se a mulher tivesse sido morta por uma pessoa lá dentro talvez a reação teria sido outra pela PBH, mas o parque continuaria aberto.

    Vê-se que algo está sendo feito – as árvores do parque estão marcadas com cordinhas de várias cores que nem imagino o que significa.

    é preciso discutir mais sobre o verde em BH. Várias vezes as podas que precisava não foram atendidas e em outras vi arvores sendo multiladas. Um descaso e desconhecimento a respeito de como fazer isso com um bom planejamento pode até garantir que as árvores caiam menos por sofrerem menos com doenças e desequilíbrios copa-raiz

  4. Luiz Carlos Garrocho Says:

    Insisto num ponto: a crítica deve ser embasada e não genérica!

    1) Concordo com o Dereco: é necessário um plano de manejo das árvores da cidade.
    2) Porém, não podemos afirmar que há descaso, quando a PBH interdita o Parque. Pelo contrário: foi uma atitude rápida e responsável. Se foi feita somente após a morte de uma pessoa, isso sim, é o que temos de chamar a atenção. Por que as providências sempre aparecem depois das tragédias?
    3)Quanto às fitinhas, esclareço: vermelha quando a árvore está condenada e deve ser cortada, branca no caso de a árvore necessitar de poda, verde indica que a árvore está boa e por fim, amarela diz que há dúvidas quanto à necessidade de corta e que novos exames devem ser feitos.
    4) Anônimo disse que é necessário “discutir mais sobre o verde em BH”. O que isso significa? Acho que deveria ser algo como: sair de casa para participar de fóruns, associações, munir-se de informações precisas (cobrá-las quando não as tiver), exigir dos vereadores mais presença e vigilância etc.
    5) Cidadania dá trabalho, estabelece confrontos e exige mais do que fantasiar sobre a vida e a natureza.

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