Ô abre valas que o Pato Donald quer passar

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Texto publicado originalmente no blog http://www.odisseianoespaco.wordpress.com, do Nuno Manna.

(BH, abril de 2010)

Quem chegasse nervoso, exigindo explicações pelas intervenções na orla da Lagoa da Pampulha para o evento que aconteceria no dia seguinte, seria desconcertado pela simpática recepção de Dona Valdete. A secretária da Regional Pampulha derreteria qualquer coração gelado com a gentileza encarnada em sua voz doce e sorriso delicado. Logo lhe ofereceria uma cadeira, uma água, um cafezinho, e um release que colocaria tudo em pratos limpos. Como lá constava, no sábado, dia 27 de março, a Pampulha abriria suas portas para uma homenagem da Nestlé a Belo Horizonte. A cidade receberia atividades voltadas às famílias mineiras, “promovendo ações de conscientização ambiental e conservação da área, apoiando projetos de melhoria e prestando serviço para a comunidade por meio de atividades de educação, lazer e entretenimento.” Para coroar o dia e encantar o público, entraria em cena a Parada Disney, um desfile que percorreria dois quilômetros da orla com carros alegóricos espalhando a magia da turma do Mickey Mouse. Diante de tamanha homenagem, o que significavam algumas árvores, quebra-molas e canteiros a menos?

A organização do evento vinha sofrendo uma série de críticas e reclamações, especialmente dos moradores da região que abrigaria o evento – formada em grande parte por bairros de vistosas mansões. Questionava-se sobretudo a escolha da orla da Lagoa da Pampulha, local irregular e estreito, com poucas vias para acesso e escoamento, e que exigiam tantas adaptações para cumprir as exigências do evento. Se a gentileza de Dona Valdete e o texto apaixonado do release não convencessem o reclamante, a Regional lançaria mão de seu curinga: João Gabriel, o assessor de comunicação.

De postura épica e com frases peremptórias na ponta da língua, João Gabriel já tem as respostas para todas as perguntas, antes mesmo que elas terminam de ser formuladas. “É um por cento da população de Minas Gerais que já teve condições de ir aos Estados Unidos e à Disney. E o restante que pode estar aqui amanhã com as crianças vendo o desfile de graça? Isso também tem que ver, né. É o lado bom da coisa. É por aí.” E golpeia antes que o acertem: “Todos os eventos aqui são contestados pela população rica, pelo pessoal de posse. Evento no Mineirão, evento no Mineirinho, eles contestam tudo. Eles não querem evento aqui. Querem que a Pampulha esteja livre pra eles. Entendeu? É isso.” Depois disso, João Gabriel dá uma aula mais que didática sobre a democracia e o espaço urbano: “A Pampulha é um local público. É público: não tem dono. É para o povo. Entendeu? Público. Então quem cuida disso é a prefeitura, através da Regional Pampulha. É isso.”

Para que não haja mal entendidos, João Gabriel justifica as intervenções na orla da Lagoa. Afirma que as árvores que foram arrancadas já estavam tombadas em decorrência de um vendaval que assolou a região alguns dias antes. O restante só teve que passar por uma poda básica, que também já seria feita mas que foi antecipada em função do evento. Ainda ficaram alguns galhos que insistiam em atrapalhar a passagem do cabeção do Buzz Lightyear, mas nada que alguns cabos de aço não resolveram. Já as lombadas, os fios, a rotatória, as placas de sinalização, os pedaços de calçada… é só tirar e pôr de novo. “Reconstruir o meio-fio é colocar terra e grama. Isso é a coisa mais fácil que tem. Entendeu? É por aí.”

A Secretária do Turismo do Estado de MG, Érica Drummond, jura que a Pampulha foi escolhida dentre várias opções por apresentar as características técnicas ideais. João Gabriel tem uma justificativa bem mais convincente: “Porque a Pampulha é linda. E o Mickey é um sonho. Uniu-se o sonho à beleza da Pampulha. Por isso. Mais nada.” E sobre como o evento conjuga suas atividades com valores como conscientização ambiental e conservação da área, João Gabriel é preciso: “Disso eu não sei não.” Talvez, por um deslize momentâneo, dona Valdete se esqueceu de lhe fazer uma cópia do release. Mas pra não deixar por menos, o assessor compensa: “Mas nós temos vários projetos pra melhorar a Pampulha.” Tipo quais? “Eu não posso falar, porque os projetos estão sendo escolhidos. O que se faz é recolher o lixo. E limpar a Pampulha. É isso.” Ah, bom.

Se depois de tantos argumentos, o reclamante insistisse na questão, João Gabriel usaria seus maiores dons para conquistá-lo: uma lição de vida – “Eu sou realizado na minha profissão. Já passei por muita coisa na vida. E de 1974 a 1985, não fui preso nem nada. Faço palestras aí nas escolas. Você pode olhar meu currículo. Não é com presunção não. É porque eu gosto de passar alguma coisa que eu aprendi. Isso me foi dado, assim, com muita beleza.” – e a poesia – “Vou te dar um livro meu pra você ler. Eu tenho 160 poemas sobre o amor”. De dentro de uma gaveta estrategicamente à mão, João Gabriel tira um livro preto que estampa na capa uma rosa vermelha contornada por um foco de luz em forma de coração. Em amarelo, o título: “Amor Total”. De dentro de um dos o’s, um cupido espreita com sua flecha.

Marcianos,
Marcianas,
Onde estão?
O que fazem
Nesse outro mundo?
Me expliquem
Por favor
Como praticam o amor
(…)
ET,
Homem e mulher
Para vocês
É tão complicado amar?
Imagino que não
Mas pergunto se tem
O mesmo sabor
Do nosso amor

Os trechos sutis e maravilhosos são de Amor ET. A coletânea traz ainda outras preciosidades a serem descobertas, como Amor supimpaAmor burroAmor pequiAmor talibãAmor no mato. Envolvendo seu interlocutor tão intensamente, João Gabriel apazigua qualquer tipo de amargura. Não se importa de receber tantas pessoas questionando sobre a Parada Disney. “Isso a gente tira de letra! Não tem dor de cabeça nenhuma.” E para mostrar seu desprendimento de questões mundanas, João Gabriel chama atenção para as coisas verdadeiramente valiosas na sua vida. “Se eu tivesse oportunidade de ir a  um desfile como esse nos EUA eu não iria. Eu não tenho atração por isso. Se fosse negócio de literatura, cultura… Eu não iria pra ver boneco da Disney. Não faz sentido. Mas criança iria. É pras crianças. Entendeu? É isso.” E tudo estaria bem. Ânimos apaziguados, o amor nos corações, árvores, lombadas, canteiros…fora do caminho, e a Bela Adormecida vigilante e a postos. Tudo sairia bem, não fosse pela ação daquelas que, ironicamente, eram o motivo de todo o evento e de quem menos se esperaria algum tipo de perturbação: as crianças.

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O início da Parada estava marcado para as quatro da tarde daquele sábado. Por volta do meio dia, a orla da Pampulha ainda estava tranqüila. O pessoal da staff do evento ainda recebia seus uniformes. Alguns estavam almoçando calmamente as marmitas que foram distribuídas, sentados sob as sobras das árvores. As primeiras crianças, com os pais mais precavidos, começavam a chegar.

Elas vinham com suas carinhas de santo, baínho tomado, cabelinho penteado e olhinhos arregalados. Santinhos do pau oco. Chegavam e logo se faziam em casa, correndo pra lá e pra cá, gritando, atazanando os distribuidores de brindes. Uma gangue de tatuados já se organizara. Enquanto uma especialista em carinha de dó chantageava para conseguir montes de papéis de tatuagem adesiva, um mais velho e chefe do bando se encarregava de pregar e molhar as estampas nas bochechas dos mais novos.

Havia bandeirinhas e orelhinhas de papel do Mickey para todos, o que não evitava a competição para ver quem tinha mais, ficava mais bonitinho e levantava mais alto sua bandeirinha. A admiração pelo camundongo maior era de menos. Não importava que seus ídolos agora sejam as Meninas Super Poderosas e os Backyardigans. Os interesseiros e deslumbrados balançavam suas bandeirinhas e gritavam levianamente o nome do símbolo da infância de seus pais: “Mickey! Mickey!”.

Tudo era espetáculo. Nem mesmo os brigadistas do Corpo de Bombeiros, preocupados com a segurança das pestinhas, estavam livres do assédio. Uma menina quis porque quis que seu pai tirasse uma foto sua com o moço uniformizado.

No meio da multidão, com preguiça de tentar chegar aos banheiros químicos, um despudorado de uns dois anos de idade resolveu fazer xixi ali mesmo, na frente de todos, debaixo de uma árvore. Nem mesmo os mais folgados foliões dos carnavais teriam tanto descaramento.

Espalhadas entre a Igreja de São Francisco e o Iate Club, os capetinhas estavam tão cheios de si que faziam pouquíssimo caso das curvas de Niemeyer, dos murais de Paulo Werneck e de Portinari, dos baixos-relevos de Alfredo Ceschiatti, dos jardins de Bourlle Marx. Sinal de uma geração que tem seu próprio e novo Centro Administrativo Presidente Tancredo Neves, e que não se impressiona com o que não tem 146 metros de vão suspenso.

Algum tempo depois, o estreito espaço reservado para o público (incluindo o que sobrou das calçadas e os jardins dianteiros das casas dos moradores) estava tomado por uma multidão de crianças. O cheiro de perfume e talquinho era tão inebriante que nem se sentia o cheiro da lagoa. O bando que arrastou seus pais para sair atrás do trio do Mickey tomava conta tão completamente do local que ninguém mais conseguia chegar até lá. Outros tantos meninos invejosos davam chiliques dentro dos carros e ônibus a quilômetros de distância presas nos engarrafamentos das avenidas da região.

Quando um apressadinho perguntou sobre a hora do início da Parada, um segurança respondeu que ela estava marcada para as quatro, mas que devia começar umas quatro e meia. Um colega de equipe que estava ao lado corrigiu em tom repreensivo: “Começa às quatro em ponto, rapá!” O primeiro justificou: “Essas coisas nunca começam na hora. Em quantos eventos você já trabalhou?” O segundo retrucou: “Mas isso aqui é evento internacional.” Novamente, o primeiro mostrou que tinha seus motivos: “O show do Guns ‘N Roses era internacional e atrasou duas horas!” Mas, aparentemente, o ursinho Pooh não demora tanto tempo para se vestir quanto Axl Rose. Às quatro horas o primeiro carro apontou.

Eram Donald e Margarida dentro de um calhambeque vermelho. As crianças enlouquecidas soltavam berros agudos e ensurdecedores, mais histéricas que adolescentes no cinema assistindo a Crepúsculo e que mulheres de meia idade ouvindo Eduardo Suplicy interpretando Racionais MC’s. Nem repararam que o carro de Donald era uma réplica do Chevy 1933 Coupe, com motor 2.3, cinco marchas e direção hidráulica, produzido artesanalmente por uma equipe supervisionada por Emerson Fittipaldi, inspirado no calhambeque do Rei Roberto Carlos. Elas só queriam saber do casal de patos.

Foram quarenta minutos de Pequena Sereia, Peter Pan, Mogli, Branca de Neve e os Sete Anões… Mas a magia não era o suficiente para evitar o verdadeiro caos estava para começar. O castelo mágico da Disney começou a desabar quando uma menina maldosa de uns 8 anos revelou ao irmão mais novo: “O Mickey de verdade ficou na casa dele. Ele só mandou um representante.” Ela descobrira que, apesar de ser supervisionada pela Disney, a Parada era formada por atores brasileiros, não se tratando da original. O menino ficou desolado. A notícia correu rapidamente a multidão. Revoltadas, as crianças jogavam suas bandeirinhas e orelhinhas no chão, usando de desculpa a falta de cestas de lixo, deixando o local imundo. Muitas se rebelaram e se soltaram dos pais, fugindo muvuca adentro.

O evento que se preparara para receber 100 mil pessoas, teve um público estimado de mais de 200 mil – enquanto um Mineirão ali ao lado, lotado em dia de jogo, recebe 60 mil pagantes. E se outras milhares de pessoas ficaram presas no trânsito tentando chegar e ocupar o disputado espaço no trajeto do desfile, as que conseguiram (ou pelo menos tentaram) receber um tchauzinho da Sininho não podiam sair de lá. Eram 200 mil pessoas presas no mundo encantado. No mar de gente congestionado na orla via-se crianças chorando, pais enfurecidos, carrinhos de bebês sendo carregados por cima da multidão, mãe sentada no chão amamentando. O que não faltou foi criança perdida e desidratada pelo calor e sede.

Às oito da noite os carros e ônibus ainda tentavam sair do lugar. A Calourada da UFMG que acontecia no centro esportivo logo ao lado contribuía para obstruir as saídas e represar a multidão. Os mais dispostos já haviam conseguido andar alguns quilômetros para tentar um ponto de ônibus livre. Algumas das crianças, as mais perseverantes, ainda caminhavam usando suas orelhinhas de camundongo.

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No início da semana seguinte, a Secretária do Turismo de MG estava satisfeita com o teste da área de Belo Horizonte que vai abrigar jogos da Copa do Mundo em 2014. “Essa vivência de organização de grandes eventos é importante pra BH. Foi o maior evento que BH já recebeu. E vimos que foi um sucesso. Foi pra quem quer ver desenvolvimento, entretenimento, atrativo turístico para todos. Não teve um acidente. Todo mundo caminhando devagar, sem correria. Se eu pudesse e se houvesse interesse do setor privado, repetiria o evento semana que vem. É BH se inserindo no contexto dos grandes eventos.”

A Secretária também avalia positivamente a estrutura mínima que foi necessária para realizar o desfile, e mostra como Belo Horizonte é uma cidade privilegiada. “Em cidades maiores, todo o trânsito é modificado pra que se tenha um grande evento.” E sobre os problemas de acomodação e deslocamento do público, ela deixa sua mea culpa: “Não imaginamos 200 mil pessoas. Se eu soubesse talvez eu teria ido às rádios, interditado as vias indo e voltando. A organização dá jeito pra tudo.” Mas mostra que não é de todo culpada: “O que não pode, também, é o público achar que pode sair de casa só uma hora antes e sair vinte minutos depois que acabou. O belorizontino não está acostumado. É uma falta de experiência do público e de eu que organizei. Agora já temos essa expertise.” Falou ainda sobre os efeitos do evento para o local: “As intervenções foram muito pequenas para um evento tão grande. E três, quatro horas depois, a Pampulha estava impecável.” O tapete de papel picado colorido deixado na rua certamente era um presente para os que correram por lá na maratona do dia seguinte.

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Nem todos puderam prestigiar o evento, por motivos diversos que não o da saturação do espaço da Pampulha. No momento em que o Pato Donald engatava a primeira em seu calhambeque rumo à glória, o governador Aécio Neves sorria para uma foto em Teófilo Otoni, homenageado pelo apoio às regiões mais pobres do Estado; o prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda estava em viagem a Bogotá, tendo lições sobre sistemas de transporte de massa; um grupo de cerca de 150 pessoas partia em marcha para a sede da prefeitura em protesto contra cortes no orçamento para a cultura, o cancelamento de grandes eventos de cunho cultural na cidade e o decreto do prefeito (“…considerando a dificuldade em limitar o número de pessoas e garantir a segurança pública decorrente da concentração e, ainda, da depredação do patrimônio público…”) proibindo eventos “de qualquer natureza” na Praça da Estação, uma das maiores praças da cidade; o assessor/poeta João Gabriel estava em casa, se compadecendo com sua mulher que machucara o pé; o filho de seis anos de João Gabriel, menino compreensível que é, não se importou com a perda da passagem do Pateta.

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2 Respostas to “Ô abre valas que o Pato Donald quer passar”

  1. Cabo de aço - Wilson Says:

    Estava lendo teu post e me deparei com a parte dos cabos, mesmo o assunto não sendo este. Muito bom! Abraços! Wilson

  2. Antônia Lúcia Says:

    Parabéns pelo a matéria, fique muito feliz por os expositores ter conquistado o direito de continuar trabalhando. Nós que trabalhamos na feira do mineirinho, não sabemos qual sera nosso destino apos 30 de (NOVEMBRO) .Estamos em luta a meses com recusa de resposta por parte de governo estadual e municipal.
    Temos uma audiência pública dia 08/11/2011 as 3 hs na assembleia, Entre em contato conosco gostaríamos muito de sua presença. Nos ajude nesta luta do direito ao trabalho. Muito obrigada.

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