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dezembro 27, 2010

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Ô abre valas que o Pato Donald quer passar

dezembro 27, 2010

Texto publicado originalmente no blog http://www.odisseianoespaco.wordpress.com, do Nuno Manna.

(BH, abril de 2010)

Quem chegasse nervoso, exigindo explicações pelas intervenções na orla da Lagoa da Pampulha para o evento que aconteceria no dia seguinte, seria desconcertado pela simpática recepção de Dona Valdete. A secretária da Regional Pampulha derreteria qualquer coração gelado com a gentileza encarnada em sua voz doce e sorriso delicado. Logo lhe ofereceria uma cadeira, uma água, um cafezinho, e um release que colocaria tudo em pratos limpos. Como lá constava, no sábado, dia 27 de março, a Pampulha abriria suas portas para uma homenagem da Nestlé a Belo Horizonte. A cidade receberia atividades voltadas às famílias mineiras, “promovendo ações de conscientização ambiental e conservação da área, apoiando projetos de melhoria e prestando serviço para a comunidade por meio de atividades de educação, lazer e entretenimento.” Para coroar o dia e encantar o público, entraria em cena a Parada Disney, um desfile que percorreria dois quilômetros da orla com carros alegóricos espalhando a magia da turma do Mickey Mouse. Diante de tamanha homenagem, o que significavam algumas árvores, quebra-molas e canteiros a menos?

A organização do evento vinha sofrendo uma série de críticas e reclamações, especialmente dos moradores da região que abrigaria o evento – formada em grande parte por bairros de vistosas mansões. Questionava-se sobretudo a escolha da orla da Lagoa da Pampulha, local irregular e estreito, com poucas vias para acesso e escoamento, e que exigiam tantas adaptações para cumprir as exigências do evento. Se a gentileza de Dona Valdete e o texto apaixonado do release não convencessem o reclamante, a Regional lançaria mão de seu curinga: João Gabriel, o assessor de comunicação.

De postura épica e com frases peremptórias na ponta da língua, João Gabriel já tem as respostas para todas as perguntas, antes mesmo que elas terminam de ser formuladas. “É um por cento da população de Minas Gerais que já teve condições de ir aos Estados Unidos e à Disney. E o restante que pode estar aqui amanhã com as crianças vendo o desfile de graça? Isso também tem que ver, né. É o lado bom da coisa. É por aí.” E golpeia antes que o acertem: “Todos os eventos aqui são contestados pela população rica, pelo pessoal de posse. Evento no Mineirão, evento no Mineirinho, eles contestam tudo. Eles não querem evento aqui. Querem que a Pampulha esteja livre pra eles. Entendeu? É isso.” Depois disso, João Gabriel dá uma aula mais que didática sobre a democracia e o espaço urbano: “A Pampulha é um local público. É público: não tem dono. É para o povo. Entendeu? Público. Então quem cuida disso é a prefeitura, através da Regional Pampulha. É isso.”

Para que não haja mal entendidos, João Gabriel justifica as intervenções na orla da Lagoa. Afirma que as árvores que foram arrancadas já estavam tombadas em decorrência de um vendaval que assolou a região alguns dias antes. O restante só teve que passar por uma poda básica, que também já seria feita mas que foi antecipada em função do evento. Ainda ficaram alguns galhos que insistiam em atrapalhar a passagem do cabeção do Buzz Lightyear, mas nada que alguns cabos de aço não resolveram. Já as lombadas, os fios, a rotatória, as placas de sinalização, os pedaços de calçada… é só tirar e pôr de novo. “Reconstruir o meio-fio é colocar terra e grama. Isso é a coisa mais fácil que tem. Entendeu? É por aí.”

A Secretária do Turismo do Estado de MG, Érica Drummond, jura que a Pampulha foi escolhida dentre várias opções por apresentar as características técnicas ideais. João Gabriel tem uma justificativa bem mais convincente: “Porque a Pampulha é linda. E o Mickey é um sonho. Uniu-se o sonho à beleza da Pampulha. Por isso. Mais nada.” E sobre como o evento conjuga suas atividades com valores como conscientização ambiental e conservação da área, João Gabriel é preciso: “Disso eu não sei não.” Talvez, por um deslize momentâneo, dona Valdete se esqueceu de lhe fazer uma cópia do release. Mas pra não deixar por menos, o assessor compensa: “Mas nós temos vários projetos pra melhorar a Pampulha.” Tipo quais? “Eu não posso falar, porque os projetos estão sendo escolhidos. O que se faz é recolher o lixo. E limpar a Pampulha. É isso.” Ah, bom.

Se depois de tantos argumentos, o reclamante insistisse na questão, João Gabriel usaria seus maiores dons para conquistá-lo: uma lição de vida – “Eu sou realizado na minha profissão. Já passei por muita coisa na vida. E de 1974 a 1985, não fui preso nem nada. Faço palestras aí nas escolas. Você pode olhar meu currículo. Não é com presunção não. É porque eu gosto de passar alguma coisa que eu aprendi. Isso me foi dado, assim, com muita beleza.” – e a poesia – “Vou te dar um livro meu pra você ler. Eu tenho 160 poemas sobre o amor”. De dentro de uma gaveta estrategicamente à mão, João Gabriel tira um livro preto que estampa na capa uma rosa vermelha contornada por um foco de luz em forma de coração. Em amarelo, o título: “Amor Total”. De dentro de um dos o’s, um cupido espreita com sua flecha.

Marcianos,
Marcianas,
Onde estão?
O que fazem
Nesse outro mundo?
Me expliquem
Por favor
Como praticam o amor
(…)
ET,
Homem e mulher
Para vocês
É tão complicado amar?
Imagino que não
Mas pergunto se tem
O mesmo sabor
Do nosso amor

Os trechos sutis e maravilhosos são de Amor ET. A coletânea traz ainda outras preciosidades a serem descobertas, como Amor supimpaAmor burroAmor pequiAmor talibãAmor no mato. Envolvendo seu interlocutor tão intensamente, João Gabriel apazigua qualquer tipo de amargura. Não se importa de receber tantas pessoas questionando sobre a Parada Disney. “Isso a gente tira de letra! Não tem dor de cabeça nenhuma.” E para mostrar seu desprendimento de questões mundanas, João Gabriel chama atenção para as coisas verdadeiramente valiosas na sua vida. “Se eu tivesse oportunidade de ir a  um desfile como esse nos EUA eu não iria. Eu não tenho atração por isso. Se fosse negócio de literatura, cultura… Eu não iria pra ver boneco da Disney. Não faz sentido. Mas criança iria. É pras crianças. Entendeu? É isso.” E tudo estaria bem. Ânimos apaziguados, o amor nos corações, árvores, lombadas, canteiros…fora do caminho, e a Bela Adormecida vigilante e a postos. Tudo sairia bem, não fosse pela ação daquelas que, ironicamente, eram o motivo de todo o evento e de quem menos se esperaria algum tipo de perturbação: as crianças.

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O início da Parada estava marcado para as quatro da tarde daquele sábado. Por volta do meio dia, a orla da Pampulha ainda estava tranqüila. O pessoal da staff do evento ainda recebia seus uniformes. Alguns estavam almoçando calmamente as marmitas que foram distribuídas, sentados sob as sobras das árvores. As primeiras crianças, com os pais mais precavidos, começavam a chegar.

Elas vinham com suas carinhas de santo, baínho tomado, cabelinho penteado e olhinhos arregalados. Santinhos do pau oco. Chegavam e logo se faziam em casa, correndo pra lá e pra cá, gritando, atazanando os distribuidores de brindes. Uma gangue de tatuados já se organizara. Enquanto uma especialista em carinha de dó chantageava para conseguir montes de papéis de tatuagem adesiva, um mais velho e chefe do bando se encarregava de pregar e molhar as estampas nas bochechas dos mais novos.

Havia bandeirinhas e orelhinhas de papel do Mickey para todos, o que não evitava a competição para ver quem tinha mais, ficava mais bonitinho e levantava mais alto sua bandeirinha. A admiração pelo camundongo maior era de menos. Não importava que seus ídolos agora sejam as Meninas Super Poderosas e os Backyardigans. Os interesseiros e deslumbrados balançavam suas bandeirinhas e gritavam levianamente o nome do símbolo da infância de seus pais: “Mickey! Mickey!”.

Tudo era espetáculo. Nem mesmo os brigadistas do Corpo de Bombeiros, preocupados com a segurança das pestinhas, estavam livres do assédio. Uma menina quis porque quis que seu pai tirasse uma foto sua com o moço uniformizado.

No meio da multidão, com preguiça de tentar chegar aos banheiros químicos, um despudorado de uns dois anos de idade resolveu fazer xixi ali mesmo, na frente de todos, debaixo de uma árvore. Nem mesmo os mais folgados foliões dos carnavais teriam tanto descaramento.

Espalhadas entre a Igreja de São Francisco e o Iate Club, os capetinhas estavam tão cheios de si que faziam pouquíssimo caso das curvas de Niemeyer, dos murais de Paulo Werneck e de Portinari, dos baixos-relevos de Alfredo Ceschiatti, dos jardins de Bourlle Marx. Sinal de uma geração que tem seu próprio e novo Centro Administrativo Presidente Tancredo Neves, e que não se impressiona com o que não tem 146 metros de vão suspenso.

Algum tempo depois, o estreito espaço reservado para o público (incluindo o que sobrou das calçadas e os jardins dianteiros das casas dos moradores) estava tomado por uma multidão de crianças. O cheiro de perfume e talquinho era tão inebriante que nem se sentia o cheiro da lagoa. O bando que arrastou seus pais para sair atrás do trio do Mickey tomava conta tão completamente do local que ninguém mais conseguia chegar até lá. Outros tantos meninos invejosos davam chiliques dentro dos carros e ônibus a quilômetros de distância presas nos engarrafamentos das avenidas da região.

Quando um apressadinho perguntou sobre a hora do início da Parada, um segurança respondeu que ela estava marcada para as quatro, mas que devia começar umas quatro e meia. Um colega de equipe que estava ao lado corrigiu em tom repreensivo: “Começa às quatro em ponto, rapá!” O primeiro justificou: “Essas coisas nunca começam na hora. Em quantos eventos você já trabalhou?” O segundo retrucou: “Mas isso aqui é evento internacional.” Novamente, o primeiro mostrou que tinha seus motivos: “O show do Guns ‘N Roses era internacional e atrasou duas horas!” Mas, aparentemente, o ursinho Pooh não demora tanto tempo para se vestir quanto Axl Rose. Às quatro horas o primeiro carro apontou.

Eram Donald e Margarida dentro de um calhambeque vermelho. As crianças enlouquecidas soltavam berros agudos e ensurdecedores, mais histéricas que adolescentes no cinema assistindo a Crepúsculo e que mulheres de meia idade ouvindo Eduardo Suplicy interpretando Racionais MC’s. Nem repararam que o carro de Donald era uma réplica do Chevy 1933 Coupe, com motor 2.3, cinco marchas e direção hidráulica, produzido artesanalmente por uma equipe supervisionada por Emerson Fittipaldi, inspirado no calhambeque do Rei Roberto Carlos. Elas só queriam saber do casal de patos.

Foram quarenta minutos de Pequena Sereia, Peter Pan, Mogli, Branca de Neve e os Sete Anões… Mas a magia não era o suficiente para evitar o verdadeiro caos estava para começar. O castelo mágico da Disney começou a desabar quando uma menina maldosa de uns 8 anos revelou ao irmão mais novo: “O Mickey de verdade ficou na casa dele. Ele só mandou um representante.” Ela descobrira que, apesar de ser supervisionada pela Disney, a Parada era formada por atores brasileiros, não se tratando da original. O menino ficou desolado. A notícia correu rapidamente a multidão. Revoltadas, as crianças jogavam suas bandeirinhas e orelhinhas no chão, usando de desculpa a falta de cestas de lixo, deixando o local imundo. Muitas se rebelaram e se soltaram dos pais, fugindo muvuca adentro.

O evento que se preparara para receber 100 mil pessoas, teve um público estimado de mais de 200 mil – enquanto um Mineirão ali ao lado, lotado em dia de jogo, recebe 60 mil pagantes. E se outras milhares de pessoas ficaram presas no trânsito tentando chegar e ocupar o disputado espaço no trajeto do desfile, as que conseguiram (ou pelo menos tentaram) receber um tchauzinho da Sininho não podiam sair de lá. Eram 200 mil pessoas presas no mundo encantado. No mar de gente congestionado na orla via-se crianças chorando, pais enfurecidos, carrinhos de bebês sendo carregados por cima da multidão, mãe sentada no chão amamentando. O que não faltou foi criança perdida e desidratada pelo calor e sede.

Às oito da noite os carros e ônibus ainda tentavam sair do lugar. A Calourada da UFMG que acontecia no centro esportivo logo ao lado contribuía para obstruir as saídas e represar a multidão. Os mais dispostos já haviam conseguido andar alguns quilômetros para tentar um ponto de ônibus livre. Algumas das crianças, as mais perseverantes, ainda caminhavam usando suas orelhinhas de camundongo.

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No início da semana seguinte, a Secretária do Turismo de MG estava satisfeita com o teste da área de Belo Horizonte que vai abrigar jogos da Copa do Mundo em 2014. “Essa vivência de organização de grandes eventos é importante pra BH. Foi o maior evento que BH já recebeu. E vimos que foi um sucesso. Foi pra quem quer ver desenvolvimento, entretenimento, atrativo turístico para todos. Não teve um acidente. Todo mundo caminhando devagar, sem correria. Se eu pudesse e se houvesse interesse do setor privado, repetiria o evento semana que vem. É BH se inserindo no contexto dos grandes eventos.”

A Secretária também avalia positivamente a estrutura mínima que foi necessária para realizar o desfile, e mostra como Belo Horizonte é uma cidade privilegiada. “Em cidades maiores, todo o trânsito é modificado pra que se tenha um grande evento.” E sobre os problemas de acomodação e deslocamento do público, ela deixa sua mea culpa: “Não imaginamos 200 mil pessoas. Se eu soubesse talvez eu teria ido às rádios, interditado as vias indo e voltando. A organização dá jeito pra tudo.” Mas mostra que não é de todo culpada: “O que não pode, também, é o público achar que pode sair de casa só uma hora antes e sair vinte minutos depois que acabou. O belorizontino não está acostumado. É uma falta de experiência do público e de eu que organizei. Agora já temos essa expertise.” Falou ainda sobre os efeitos do evento para o local: “As intervenções foram muito pequenas para um evento tão grande. E três, quatro horas depois, a Pampulha estava impecável.” O tapete de papel picado colorido deixado na rua certamente era um presente para os que correram por lá na maratona do dia seguinte.

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Nem todos puderam prestigiar o evento, por motivos diversos que não o da saturação do espaço da Pampulha. No momento em que o Pato Donald engatava a primeira em seu calhambeque rumo à glória, o governador Aécio Neves sorria para uma foto em Teófilo Otoni, homenageado pelo apoio às regiões mais pobres do Estado; o prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda estava em viagem a Bogotá, tendo lições sobre sistemas de transporte de massa; um grupo de cerca de 150 pessoas partia em marcha para a sede da prefeitura em protesto contra cortes no orçamento para a cultura, o cancelamento de grandes eventos de cunho cultural na cidade e o decreto do prefeito (“…considerando a dificuldade em limitar o número de pessoas e garantir a segurança pública decorrente da concentração e, ainda, da depredação do patrimônio público…”) proibindo eventos “de qualquer natureza” na Praça da Estação, uma das maiores praças da cidade; o assessor/poeta João Gabriel estava em casa, se compadecendo com sua mulher que machucara o pé; o filho de seis anos de João Gabriel, menino compreensível que é, não se importou com a perda da passagem do Pateta.

AMIZADE E POLÍTICA NA PRAÇA

dezembro 26, 2010

(originalmente publicado em http://wwo.uai.com.br/EM/html/sessao_34/2010/12/)
18/interna_noticia,id_sessao=34&id_noticia=162857/
interna_noticia.shtml

João Paulo Cunha
Editor de Cultura do Estado de Minas

Domingo passado, aniversário de Belo Horizonte, um grande show na Praça da Estação trazia, além da comemoração dos 113 anos da capital, a chancela de celebração dos direitos humanos. Nem a chuva conseguiu tirar o calor do espetáculo, que mobilizou gente dos quatro cantos da cidade, feliz em ouvir e cantar com artistas como Chico César, Luiz Melodia, Antônio Nóbrega, Elza Soares e Lenine, além de homenagear Milton Nascimento, com direito à presença de Pablo Milanés. Teria sido tudo excelente, não fosse pelo constrangimento que cercava a praça em forma de gradis e revistas policiais. Com o argumento de defesa do patrimônio (por reivindicação do Museu de Artes e Ofícios), a praça não é mais do povo, como o céu também não é mais do condor. Policiais no chão, aviões no ar.

Os eventos na Praça da Estação são regidos por uma norma pública emanada da PBH, exigindo que se erijam cercas e se organizem filas para… frequentar a praça. Contradição em termos, praça cercada não é mais praça, mas local marcado pela exclusão e cerceamento da liberdade. Há muito desprestigiado, o Centro de Belo Horizonte vem ensaiando uma renovação, buscando estabelecer focos de atração, políticas de ocupação pela arte, incentivo à circulação de pessoas. Ao proibir os eventos no local, a prefeitura recebeu a resposta da sociedade, que se mobilizou e cobrou de volta a sua “praia”. As exigências atuais, por isso mesmo, mais parecem reação que verdadeira tentativa de proteção do local, pois foram baixadas sem qualquer debate público.

A praça precisa ser protegida, mas não pode deixar de ser praça. Qualquer norma civilizada de defesa do patrimônio e das pessoas passa pela confiança na civilidade da maioria, não pela universalização da suspeita. Vai pensar duas vezes quem, para ir a show de música popular ou a qualquer manifestação política ou religiosa (a intolerância, nesse caso, foi nitidamente dirigida às religiões populares, numa operação a mais de preconceito), precisar entrar numa fila para pegar ingresso, enfrentar um funil de grades, passar por revista e ficar impedido de sair, sob a pena de repetir todo o processo. A praça cercada é um apelo ao sedentarismo cidadão: fique em casa, cada um na sua.

Há muitas formas de conter a destruição do patrimônio e de garantir segurança às pessoas. Além da tecnologia existente, em termos de informação e inteligência não inventaram nada melhor que educação para conter os impulsos destrutivos. Impedir ou dificultar o acesso a espaços públicos é aposta na mais deseducada das atitudes: a repressão prévia. Um lugar bem preparado, com policiamento adequado, banheiros em quantidade suficiente, com bom fluxo de informação, transporte público bem planejado, suporte para quem carece de atenção especial – este é o pacote mínimo para uma política educada de quem quer receber público com dignidade e atenção. Sobretudo se o visitante é o dono da casa.

Casa e rua Há um sentido a mais nessa história. A praça se tornou, desde a Revolução Francesa, a mãe de todas as insurreições libertárias, o solo da liberdade. A praça simboliza, na escala da sociedade, o que a casa significa no âmbito da família. O lar é o território da individualidade, a praça é o endereço do social. Se é na casa que se estabelece boa parte das relações afetivas mais íntimas, é ao ar livre que se dá o jogo da amizade e da política. Precisamos de amigos como precisamos de bons políticos, sem a praça corremos o risco de não encontrar nenhum dos dois: a amizade se privatiza e os políticos parecem não nos dizer respeito. A praça não é apenas confluência de ruas, mas de afetos que escapam à dimensão do indivíduo.

Podemos entender essa dicotomia como a separação entre dois tipos de elos que aproximam os homens. Há o elo forte da amizade, que se dá pela identidade, confiança, permanência. Há o elo fraco da política, medido pela necessidade de representação, pelo partilhamento de interesses comuns, pela impermanência dos desejos. Não há sociedade sem amigos e sem política. O ideal é que os dois elos sejam intercalados na corrente da vida: há momentos para a amizade (que sustenta nossos valores) e tempo para a política (que permite a vigência de valores comuns).

Outra forma de entender a importância de uma praça franqueada e livre é se voltar para os diálogos que são travados em seus bancos e espaços. Há a conversa dura e existe a conversa mole. A primeira atende aos projetos universais, aos grandes temas, aos negócios da sociedade. O lugar da conversa dura pode ser o parlamento, a entidade de classe, o sindicato, a universidade. Mas não podemos barrar a existência de um lugar para a conversa mole, para o papo que realiza outras dimensões da humanidade, que pode evoluir para a amizade e o amor. Sem conversa mole, não há sentido na conversa dura. Um mundo sem afeto não precisa de gente.

O antropólogo Roberto DaMatta vem, há muitos anos, buscando decifrar alguns aspectos do nosso jeito de ser brasileiro. Para ele, uma boa forma de se aproximar da alma do nosso povo é compreender sua ambiguidade essencial: somos sempre dois, um da casa e outro da rua. Há uma moral para cada terreno. Somos livres, permissivos e alegres na rua; exibimos a carranca, o senso de repressão e o convencionalismo em casa. O interessante, ressalta DaMatta, é que não se trata de esquizofrenia, mas de comportamento funcional, que mora dentro da mesma subjetividade. O brasileiro é de esquerda na rua e de direita em casa.

Sem querer extrapolar a rica hermenêutica psicológica do antropólogo, podemos pensar que fechar as ruas ao povo é uma forma tornar a sociedade mais conservadora. Conversar na praça (ir a shows, comícios e cultos) é comportamento de esquerda. Pedir carteirinha e fazer corredor polonês é atitude reacionária. Usando as palavras com poesia, podemos dizer que o belo-horizontino tem alma de esquerda e que a PBH tem atitudes afetivas de direita.

Talvez seja a hora de os manifestantes que protestaram contra o fechamento da Praça da Estação voltarem à cena, com sua anarquia e saudável conversa mole. É desse tipo de papo que estamos precisando. O risco maior pode ser a vitória da conversa dura e da lei dura em todas as praças da cidade. Aí, mais que cerceada, vamos ter uma cidade triste.

 

Pensamento PiXação

dezembro 25, 2010

(Pessoal, para colocar lenha em nossa discussão, segue um texto de Marcia Tiburi originalmente publicado na revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/pensamento-pixacao/. Abraços,Priscila Musa)

de Marcia Tiburi

Para questionar a estética da fachada

A revolta geral da sociedade contemporânea contra a pichação se ampara na hipótese de seu caráter violento. Usarei a expressão pixação, com X, para tentar tocar no X da questão.  A estética da brancura ou do liso dos muros, hegemônica em uma sociedade que preserva o ideal da limpeza estética, dificulta outras leituras do fenômeno da pixação. O excessivo amor pela lisura dos muros, a sacralização que faz da pixação demônio, revela enquanto esconde uma estética da fachada.

Toda estética inclui uma ética, assim a da fachada. Fachada é aquilo que mostra uma habitação por fora; pode tanto dar seqüência ao que há na interioridade, quanto ser dela desconexo. É da fachada que se baste por si mesma à medida que lhe é próprio ser suficiente aos olhos. A estética da fachada que defende o muro branco é a mesma que sustenta a plastificação dos rostos, a ostentação dos luxos no “aparecimento geral” da cultura espetacular, no histérico “dar-se a ver” que produz efeitos catastróficos em uma sociedade inconsciente de seus próprios processos.

Nesta São Paulo do começo de século 21 não é permitido cobrir “fachadas” com propagandas e outdoors. A proibição, ainda que democrática, produz um novo efeito de observação da cidade. Tornou-se visível o que se ocultava por trás do “embelezamento” capcioso sobre um outro cenário. A obrigação do padrão do liso é efeito da democracia que, no entanto, flerta com sua manutenção autoritária. É o desejo governamental da neutralidade e da objetividade no espaço público o que deve servir de cenário à vida na cidade. Governar é no Brasil a habilidade de comandar a fachada que na administração paulistana sai do símbolo para entrar na prática mais imediata do cotidiano. A vontade de fachada é, afinal, uma vontade de poder compartilhada por toda a cultura em todos os seus níveis.

A pixação é o contrário do outdoor, ainda que compartilhe com ele a proibição de aparecer no cenário urbano comprometido pelo governo com uma neutralidade que serve à mesma ocultação de carroceiros e outros excluídos. Ampara-se no olhar burguês cego para mendigos e crianças abandonadas nas ruas. Enquanto o outdoor pode se sustentar no pagamento das taxas que o permitem, a pixação não alcança nenhuma autorização, ela está fora das relações de produção. O que o outdoor escondia era muitas vezes a própria pixação, enquanto a pixação não esconde nada, ela é o que se mostra quando ninguém quer ver sendo meramente compreendida como “ofensa” ao muro branco. Anti-capitalista, a pixação não se insere em nenhuma lógica produtiva, ela é irrupção de algo que não pode ser dito. Sem pagar taxas, o pichador exercerá uma espécie de lógica da denúncia. Mas quem poderá perceber?

Não é possível negar o direito ao muro branco ou liso em uma sociedade democrática, na qual está sempre em jogo a convivência das diferenças. O direito ao muro branco é efeito da democracia. Mas a questão é bem mais séria do que a sustentação de uma aparência ou de um padrão do gosto. A pixação é também um efeito da democracia, mas apenas no momento à ela inerente em que ela nega a si mesma. Ela é efeito do mutismo nascido no cerne da democracia e por ela negado ao fingir a inexistência de combates intestinos e velados. A pixação é, neste sentido, a assinatura compulsiva de um direito à cidade. Um abaixo-assinado, às vezes surdo, às vezes cego, pleno de erros, analfabeto, precário em sua retórica, mas que, em sua forma e conteúdo, sinaliza um retrato em negativo da verdade quanto ao espaço – e nosso modo de percebê-lo – nas sociedades urbanas. Espaço atravessado, estraçalhado, pela exclusão social.

A pixação é uma gramática que requer a compreensão da brancura dos muros. O gesto de escrever só pode ser compreendido tendo em vista que todo signo, letra, palavra, investe-se contra ou a favor de um branco pressuposto no papel. O grau zero da literatura é esta luta com o branco. A escrita é combate contra o branco, negação do alvor fanático, como o pensamento é sempre oposição e negação do que se dispõe como evidente, convencional, pressuposto. Por outro lado, a escrita é abertura e dissecação do branco, lapidação do branco pelo esforço da pedra, mas nunca sua confirmação, nunca é a ação da borracha, do apagamento, da camada de tinta que alisará o passado, o que desagrada ver. Sua lógica é a do inconformismo infinito. Imagine-se uma sociedade em que o papel não fosse feito para a escrita, em que as superfícies brancas de celulose não sustentassem idéias, comunicação, expressão, afetos, anseios, angústias. Imagine-se uma sociedade em branco e começar-se-á a entender porque a pixação nas grandes cidades é bem mais do que um ato vândalo que, para além de ser uma forma de violência, define a cidade como um grande livro escrito em linguagem cifrada. O pichador é o mais ousado escritor de todos os tempos. Diante do pichador todo escritor é ingênuo. Diante da pixação a literatura é lixo.

A Cidade como Mídia

Uma leitura da pixação que veja nela a mera ofensa ao branco perderá de vista a negação filosófica do branco que é exercida pela pixação. A pixação eleva o muro a campo de experiência, faz dele algo mais do que parede separadora de territórios. Mais que propriedade invadida é a própria questão da propriedade quanto ao que se vê que é posta em xeque.

A pixação é o grito impresso nos muros. Ação afetivo-reflexiva em uma sociedade violenta que não aceita a violência que advém de um estado de violência. Ela é a marca anti-espetacular, o furo no padrão da falsidade estética que estrutura a cidade. É a irrupção do insuportável à leitura e que exige leitura para a qual a tão assustada quanto autoritária sociedade civil é analfabeta. E politicamente analfabeta.

Em vez do gesto auto-contente, o que a pixação revela é a irrupção de uma lírica anormal. A Internet com seus blogs (horrendos, bonitos, mais bem feitos ou mais mau-humorados) é o seu análogo perfeito. A pixação revela o desejo da publicação que manifesta a cidade como uma grande mídia em que a edição se dá como transgressão e reedição onde o pichador é o único a buscar, para além das meras possibilidades de informar ou comunicar, a verdade atual da poesia, aquela que revela a destruição da beleza, o espasmo, a irregularidade, a afronta, que não foi promovida pela pixação, mas que ela dá a ver. Em sua existência convulsa a pixação é a única lírica que nos resta.

Ações entre arte e política

dezembro 25, 2010

(matéria originalmente publicada no jornal O Tempo desta sexta-feira, dia 24: http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=159066%2COTE)

Arte urbana.Em 2010, artistas e cidadãos belo-horizontinos conheceram as dores e as delícias de ocupar a cidade

DANIEL TOLEDO
Especial para O Tempo

É difícil precisar o momento exato do surgimento do termo arte urbana para nomear a arte que ocupa as cidades. Durante séculos, o termo monumento parecia suficiente para designar as obras de arte que, com a principal função de glorificar deuses e governantes, eram instaladas em ambientes como praças cívicas e religiosas. No entanto, desde o início do século XX e sobretudo a partir dos anos 60, esses objetos passaram a conviver com outras ações artísticas, singulares em suas formas e em seus conteúdos.

Se os monumentos seguem homenageando grandes nomes da história, a produção contemporânea está atenta aos indivíduos comuns e às questões que lhes afetam. Inspirados pela liberdade dos dadaístas e pela geração dos anos 60, os contemporâneos tem como busca estreitar suas relações com o habitante da cidade e seus espaços de vida.

No caso de Belo Horizonte, a última década parece ter aproximado a cidade dessa concepção contemporânea de arte urbana. Evidência disso é a quantidade e a diversidade de ações artísticas realizadas nos espaços públicos da cidade ao longo de 2010.

São happenings, performances, instalações, intervenções visuais e ações cênicas, todos marcados pelo desejo de discutir os destinos de Belo Horizonte e dos seus espaços públicos. “Tem muita gente na cidade que está querendo que os espaços públicos sejam mais criativos. Nesse sentido, 2010 trouxe várias ações que serviram como reflexões sobre esses espaços – e, muitas vezes, reflexões bem divertidas”, sintetiza o artista Marcelo Terça-Nada, integrante do Poro.

O grande destaque do ano, nesse sentido, foi certamente a consolidação da “Praia da Estação”. Reformada pela prefeitura em 2005, a praça da Estação, para além de sua ocupação rotineira, conformava-se como um importante local público para a realização de grandes eventos como shows e espetáculos teatrais. Alegando que a realização desses eventos gerava situações em que era impossível garantir a segurança pública e, ainda mais, contribuía para a depredação do patrimônio da cidade, a prefeitura emitiu, em dezembro de 2009, um decreto proibindo a realização de eventos de qualquer natureza no local.

Ao longo dos meses seguintes, integrantes da sociedade civil organizaram protestos pacíficos e irreverentes, transformando o espaço, aos fins de semana, na “Praia da Estação”. “A praia é, por excelência, um espaço público universal, aonde as pessoas podem ir, indiferentemente de cor, crença ou classe social. É um espaço público de encontro e convivência. Como aqui não temos uma praia, qual seria esse espaço de troca e convivência? As praças, os parques, as ruas, os espaços de trânsito livre. Decidimos transformar a praça em praia, em um espaço de convivência e convergência”, explica o antropólogo Rafael Barros, um dos mais cativos banhistas da praia belo-horizontina.

Com média de 200 pessoas vestidas em trajes de banho, diversas atrações culturais e um caminhão-pipa que substituía as fontes da praça da Estação (recorrentemente desligadas durante os eventos), os protestos semanais ganharam ampla visibilidade e motivaram uma série de reuniões entre os banhistas e representantes da prefeitura. Ainda que a questão não tenha sido totalmente resolvida ao longo de 2010, Barros conta que estão previstas novas reuniões com a prefeitura e adianta que, neste verão, a praia continua. “O evento segue em janeiro e vai até o Carnaval, com o Bloco da Praia. Além disso, já prevemos a realização do terceiro ‘eventão’, para comemorar um ano da ‘Praia da Estação’”, antecipa.

Reflexão e crítica sobre a vida nas grandes cidades

Paralelamente aos acontecimentos da praça Rui Barbosa, também conhecida como praça da Estação, foram realizadas inumeráveis ações e eventos voltados à ressignificação dos espaços públicos de Belo Horizonte e à revelação de aspectos da vida urbana muitas vezes invisíveis aos olhos de apressados pedestres e motoristas.

A partir desses trabalhos, o cidadão é convocado a pensar, por exemplo, sobre a própria relação com os espaços da cidade, sobre as relações entre indivíduo e Estado, entre capital e cidade ou entre natureza e urbanização, para citar algumas. É incentivado, assim, a estranhar a cidade e sua organização, em vez de aceitá-la tal qual é.

Veteranos da arte urbana de Belo Horizonte e integrantes do Poro, os artistas Marcelo Terça-Nada e Brígida Campbell comemoram grandes conquistas em 2010. Depois de lançar um documentário sobre os nove anos de atividades, a dupla prepara um livro sobre o próprio trabalho. Com sutis interferências em muros, calçadas, fachadas e jardins urbanos, o Poro tem desenvolvido um trabalho bastante singular, que equilibra poesia e crítica. “Com a intervenção urbana, atuamos diretamente no contexto, na situação social que nos interessa. Sempre tratamos de problemáticas urbanas e faz todo sentido abordar essa problemática no próprio contexto onde ela acontece”, comenta Terça-Nada.

Também merece destaque o evento Vendendo Peixe, que reuniu cerca de 400 pessoas em um andar desativado do Mercado Novo e foi realizado pelo coletivo Urubois e a equipe do site Mixsordia. De igual maneira devem ser lembradas as duas edições do projeto Perpendicular, coordenadas por Wagner Rossi Campos; o “Travessão”, de Elisa Marques e Nian Pissolati; “Quintal Canadá”, realizado por Roberto Andrés e Fernanda Regaldo durante residência artística no JA.CA; o “Praia Atlântico Clube”, de Louise Ganz e Inês Linke; e os poéticos balanços do coletivo MAP, formado por Fernando Ancil, Leandro Aragão e Marcelo Adão.

Ocupação. Até mesmo artistas acostumados aos palcos optaram, neste ano, por se aventurar na cidade. Esse foi o caso da ação “O Nome Disso É Rua”, realizada pelos atores Alexandre de Sena, Elisa Belém, Gustavo Bones, Mariana Maioline e Renata Cabral. Inspirado por personagens urbanos como engraxates, carroceiros e moradores de rua, o grupo investigou formas alternativas de habitar a cidade. “Para algumas pessoas as ruas não são espaços de convivência, mas, para outras, são. Fomos atrás dessas pessoas e buscamos ressaltar essas possibilidades de viver a cidade”, ressalta a atriz Mariana Maioline.

De quem é a cidade?
Em agosto deste ano, seis homens foram presos em Belo Horizonte sob a acusação de formação de quadrilha. Essa seria apenas mais uma nota policial não fosse a singularidade do crime praticado: pichação.
Na visão da pesquisadora Deborah Pennachin, o episódio levanta questões importantes e intimamente relacionadas à arte urbana.
“De quem é a cidade? É da prefeitura ou de todos nós? A pichação é um ato político, assim como a “Praia da Estação”. É um diálogo que acontece nos muros e que mostra que a cidade está viva, se transformando”, defende Deborah.

[RJ] Despejos/Revitalização – Guerreiro Urbano

dezembro 23, 2010

Postado do Blog:
http://www.pelamoradia.wordpress.com

Impactos Urbanos e Violações de Direitos Humanos nos Megaeventos Esportivos: seminário dias 8 e 9

dezembro 21, 2010

03/11/10 por raquelrolnik

Nos dias 8 e 9, será realizado em São Paulo o seminário ”Impactos Urbanos e Violações de Direitos Humanos nos Megaeventos Esportivos”, que está sendo organizado pela Relatoria Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e o Núcleo de Direito à Cidade do Departamento Jurídico XI de Agosto. Veja mais informações no boletim especial da Relatoria sobre o evento.

Por falar neste assunto, no mês passado dei uma entrevista ao Jornal Brasil de Fato sobre megaeventos e direito à moradia. Confira abaixo:

A moradia do pobre ameaçada pela Copa e pelas Olimpíadas

Relatora da ONU para o direito à moradia adequada afirma que somente com mobilização é possível frear despejos

06/10/2010 Eduardo Sales de Lima
da Redação

A realização de grandes eventos esportivos vem sempre acompanhada por violações aos direitos humanos. Especificamente no setor de moradia, os problemas sobressaltam-se ainda mais. Isso é o que conclui a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik.

Para ela, as comunidades mais atingidas e desrespeitadas por grandes eventos esportivos são justamente as de menor renda. A relatora da ONU cita exemplos de remoção em massa no Cazaquistão, na Índia e na China, por conta de eventos desse tipo.

Rolnik destaca que, por meio de mobilização popular, ainda é possível evitar os despejos autoritários tão comuns no Brasil. E isso já está ocorrendo. Organizações sociais urbanas de todo o país realizaram, entre os dias 20 e 24 de setembro, a Jornada de Lutas Nacional contra Despejos.

Potencializadas, agora, pela realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, em 2014 e 2016, respectivamente, as remoções massivas de comunidades pobres, em decorrência de obras de infraestrutura, tendem a se intensificar. Em entrevista, Rolnik elucida essa e outras questões.

Brasil de Fato – Trata-se de um mito o fato de que a realização de grandes eventos valorizam as cidades-sede e melhoram os indicadores socioeconômicos?
Raquel Rolnik –
A pergunta central que deve ser feita é “benefício para quem?”. Esses grandes eventos esportivos geram oportunidades de negócios. Isso implica uma movimentação do ponto de vista dos negócios, da dinamização econômica dessas cidades. Agora, toda a discussão é quem será beneficiado por isso. E a resposta vai depender fundamentalmente do conjunto de políticas que serão implementadas por essas cidades e, nos eventos de jogos olímpicos, no Rio de Janeiro. Vamos depender muito da capacidade de organização da sociedade civil. Um exemplo é o caso da cidade de Vancouver, no Canadá, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno, ocorridos em fevereiro de 2010, que tinha uma proposta inicial e que teve toda uma mobilização social que obrigou os promotores do evento a reverem seus planos e suas posições e incorporarem uma agenda muito mais social a partir dessas intervenções.

Você destaca em sua relatoria da Organização das Nações Unidas (ONU) que um dos setores que serão mais atingidos será o da moradia. Mas os projetos urbanísticos relacionados às cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil poderão sofrer mudanças com mobilização social, sobretudo os relacionados à moradia?
Isso é uma questão constante nas cidades que sediaram eventos desse tipo. A remoção em massa, decorrente das grandes obras, não somente da construção ou reforma de estádios, mas também das obras de infra-estrutura em conjunto, promovendo reurbanização e melhorias na mobilização das cidades, atinge especialmente as comunidades de mais baixa renda e os assentamentos informais. Eles são muito vulneráveis às situações de remoção na medida em que a situação da propriedade é muito menos reconhecida no âmbito jurídico do que a propriedade privada registrada no cartório.

Ou seja, quando as obras de infraestrutura ligadas aos estádios envolvem propriedades privadas, vão envolver compensação, vão envolver um pagamento em relação àquela casa e muitas vezes o pagamento é razoável. O que acontece é que quando se trata de comunidade de baixa renda, normalmente, os direitos são muito pouco reconhecidos, mesmo o direito à moradia estando escrito na Constituição, como no caso brasileiro.

Nós já estamos assistindo às propostas de remoção em Belo Horizonte (MG), em Fortaleza (CE), no Rio de Janeiro (RJ), em São Paulo (SP). Em várias cidades do Brasil isso já está acontecendo sem a adequada compensação com propostas de assentamento. Até o momento isso é um dos grandes problemas, dos grandes perigos na realização desses eventos aqui no Brasil, violações no campo do direito à moradia.

Você sabe quantidade de famílias que já foram ou serão atingidas?
Eu estou tentando montar uma base de dados. Mas não há informação, é uma caixa preta. Como é possível que projetos que estão sendo apresentados para acontecerem por cima de comunidades sequer disponibilizam a informação de quantas famílias vão ser afetadas, e qual será o destino dessas famílias. Essa informação não existe, ela não está disponível.

O que eu sei, inicialmente, é que, no Rio de Janeiro, sessenta comunidades seriam de alguma forma atingidas por obras ligadas à Copa do Mundo a às Olimpíadas. Isso pode ser parcialmente, pode ser totalmente. Mas quantas pessoas estão nessas comunidades, qual o tamanho delas, o que irá acontecer, nada disso se sabe, não se tem dados. E isso é o elemento básico na questão do direito à moradia, que é o direito de todos os atingidos de saber quando tal projeto fica pronto, qual a proposta, e o direito, inclusive, de participar da discussão de alternativas dessas propostas. Sempre têm alternativas que vão remover menos, o contrário do que está acontecendo no Brasil hoje.

Se há essa caixa preta sobre os impactos sobre a população, então há muito menos informações sobre os recursos que seriam destinados a essas comunidades, e a melhoria e ampliação dos equipamentos públicos que serão utilizados no local onde essas pessoas serão alocadas.

Tenho acompanhado todos esses projetos para a Copa e isso posso te dizer com muita segurança. Acompanho os protocolos que têm sido assinados entre o governo federal, os governos estaduais e prefeituras que envolvem a Copa do Mundo. Nenhum deixava claro qual será o destino da família. O meu grande temor é que a maior parte das famílias receba simplesmente o “cheque-despejo”. Joga na mão delas um cheque, às vezes, de R$ 5 mil, de R$ 3 mil, de R$ 8 mil, que todos nós sabemos que é absolutamente insuficiente para sequer comprar um barraco de favela.

Num processo sem discussão, essas famílias ficam sem escolha. É o que aconteceu na Copa da África do Sul, não?
É inadmissível que no Brasil, considerando a importância dos movimentos sociais por moradia, da luta pela terra, mesmo assim, nós vamos repetir aqui o que, por exemplo, acabamos de testemunhar na Índia, em Nova Deli, as consequências das reformas urbanas causadas pelo Commonwealth Games [que ocorrerão entre os dias 3 e 14 de outubro]. No Cazaquistão, em decorrência dos Jogos Asiáticos de Inverno (2011), na África do Sul, por causa da Copa do Mundo, especialmente na Cidade do Cabo, e na China, devido aos Jogos Olímpicos de Pequim, de 2008, ocorreram desrespeitos semelhantes em relação à moradia.

O que aconteceu?
É muito difícil ter os números exatos para dizer exatamente quantos foram os atingidos. Se fala num número de um milhão de pessoas removidas em função, não apenas das estruturas dos Jogos Olímpicos de 2008, mas também por causa de toda a transformação urbanística da cidade. Normalmente, na política chinesa, as famílias são removidas para conjuntos habitacionais na extrema periferia da cidade.

Mas a situação chinesa é melhor do que essa que testemunhamos em Nova Deli, por causa do Commonwealth Games, onde favelas foram inteiramente removidas e simplesmente não houve nenhuma alternativa de reassentamento para milhares de famílias.

No Cazaquistão, onde eu acabei de estar agora, para construir os estádios que serão utilizados pelo Jogos Asiáticos de Inverno, muitas famílias que viviam em assentamentos informais e que foram removidas receberam uma compensação financeira, mas essa compensação foi completamente insuficiente para elas poderem adquirir uma moradia digna com esses recursos. Estou falando de duzentas, trezentas famílias.

No caso da África do Sul, a localidade que eu acompanhei mais foi a Cidade do Cabo, onde existia uma favela enorme, com 20 mil moradores. O governo já havia, há muitos anos, anunciado a intenção de urbanizar essa favela. E o que acabou acontecendo é que pessoas que foram removidas para habitações temporárias – para que ficassem nessa condição provisória até a reurbanização e redesenho do assentamento – até hoje permanecem nessa condição provisória. Muitos residem em “casas” que apelidadas “microondas”, porque são contêineres feitos de metal. Os prédios novos nesse assentamento acabaram não indo para a população que morava lá antes, mas sim para uma população de maior renda.

Tudo isso são exemplos de como a questão da moradia tem sido tratada em decorrência de grandes eventos. E é tudo o que se prenuncia no Brasil se rapidamente não houver uma mobilização dos próprios assentados e de todas as redes de movimentos sociais para induzir a realização de uma política de direito à moradia.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é a instituição que, em teoria, deveria fomentar o desenvolvimento social do país. Afinal de contas, não seria a grande oportunidade dele exercer sua função social em relação a essa questão da moradia?
Essa questão do BNDES é ainda mais grave do que o modo como você está colocando. O governo brasileiro assumiu a posição de que o dinheiro público seria utilizado para obras de infraestrutura e mobilidade. Em relação aos estádios, seria pegar empréstimos de um banco público para investir nos estádios e, ao investir nos estádios, depois pagar de volta ao banco. Ele estaria atuando exatamente como ele atua hoje em vários ramos empresariais. Isso já acontece. Entretanto, está entrando dinheiro público sim, de uma maneira completamente indireta, mas eu vou citar alguns exemplos.

É o caso do estádio do Atlético Paranaense, em Curitiba. O Atlético, um clube privado, que teoricamente iria fazer a reforma de seu estádio, falando que iria se endividar, não iria pegar dinheiro do BNDES de acordo com que a FIFA pedia. Tem esse detalhe. A Fifa é a entidade mais corrupta de que se tem notícia. Ela consegue ser mais corrupta do que os governos. A Fifa exige reformas muito além do necessário, porque isso gera caixinha para seus dirigentes.

Tantos os projetos de reforma da Arena da Baixada, do Atlético Paranaense, e do estádio do Morumbi, do São Paulo, são semelhantes. Os dois clubes fizeram a proposta de reforma, que ia custar menos do que a Fifa queria, entre R$ 200 e R$ 300 milhões. A Fifa virou e falou que não, que não podia ser essa reforminha, teria que ser uma reforma maior, que gastasse algo em torno de R$ 500 milhões. No caso da Arena da Baixada, eles trabalham com o potencial construtivo do terreno [títulos imobiliários disponibilizados pela prefeitura de Curitiba e pelo estado do Paraná para promover a participação de investidores privados. A construtora que será contratada pelo Atlético Paranaense terá esses títulos como fiança. O valor máximo do potencial a ser cedido ao clube é R$ 90 milhões] onde está a arena, de modo que o investidor que está ali possa vender esse potencial construtivo, algo completamente delirante do ponto de vista jurídico.

Raquel Rolnik é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada.

 

 

Será que conseguiremos evitar a instalação de um estado de exceção no Brasil durante a Copa e as Olimpíadas?

dezembro 21, 2010

Por Raquel Rolnik

Ontem e hoje participei de um seminário sobre impactos urbanos em megaeventos esportivos, promovido pela FAU-USP, pelo Núcleo de Direito à Cidade do Departamento Jurídico XI de Agosto e pela Relatoria da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Entre os participantes, havia pesquisadores da Grécia e da África do Sul, que já realizaram Jogos Olímpicos (Atenas) e Copa do Mundo. Também ouvimos o relato dos Commonwealth Games (os jogos das ex-colônias britânicas), que acabaram de acontecer em Nova Déli, na Índia.

Além da preocupação com os impactos urbanos, houve também toda uma discussão sobre violações de direitos no âmbito destes megaeventos. Entre os vários elementos colocados, acho que a principal preocupação, que deixou muitos participantes, assim como eu, chocados, é o fato de que, em função dos jogos e principalmente durante a sua realização, os países se comprometem a fazer uma espécie de suspensão da legislação em vigor em relação a vários aspectos.

Muitas vezes a justificativa para isso é a necessidade de fazer rapidamente as obras, de concluí-las a tempo para os eventos. E aí questões importantes como avaliação de impacto ambiental, procedimentos de licitações, e uma série de coisas que normalmente são exigidas, de repente não existem mais. E isso acaba provocando graves violações de direitos em muitas situações.

Ouvimos relatos principalmente de violações de direitos trabalhistas, especialmente na construção civil; ouvimos também relatos sobre o controle das áreas em volta dos locais dos jogos, da proibição do comércio local, inclusive da proibição de circulação de pessoas em determinadas áreas. Essas questões todas somadas caracterizam o que foi chamado no seminário de uma espécie de estado de emergência ou de exceção.

E a preocupação numa situação como essa é: até onde vai isso? Que tipo de controle a sociedade pode exercer? Onde estão as informações? E esta foi também uma das questões apontadas, a falta de transparência, a não disponibilidade das informações. O que vai acontecer? Onde? Quem vai ser atingido? Qual o prazo? Ao menos descobrimos que isso não é algo exclusivo do Brasil. Todos esses processos de realização de megaeventos como Copa do Mundo e Olimpíadas se dão dessa forma segundo as experiências relatadas.

Ninguém sabe nada, ninguém informa nada e as decisões são tomadas num âmbito que ninguém sabe exatamente qual é, mas que muitas vezes é bem diferente do âmbito normal de tomada de decisões já conhecido da população. Essa é uma preocupação muito grande. Será que no Brasil vamos conseguir fazer de forma diferente? Pelo que vimos até agora, não estou muito otimista. Mas ainda é tempo.

…E PRA VOCÊ, MEU IRMÃO, O QUE É A PRAIA DA ESTAÇÃO?

dezembro 20, 2010

Longe de ser um “movimento organizado” de indivíduos com um único e mesmo objetivo, a Praia da Estação parece ser a confluência de uma heterogeneidade de pessoas que dão a ela sentidos e significados diversos…

Compartilhe aí nos comentários o modo como você vê e desfruta desse fenômeno praieiro e quais as suas possibilidades de desdobramentos!

Esta terça > 21 DE DEZEMBRO > BATE-PAPO NA PRAÇA DA ESTAÇÃO

dezembro 20, 2010
(se chover, embaixo do Viaduto Sta Tereza!)

Assunto: Conversa com representantes da Fundação Municipal de Cultura de BH

Está sendo articulado para esta terça-feira, às 19h na Praça da Estação um bate-papo para definir a pauta, o formato e a possível data para uma conversa direta com as duas representantes da Fundação Municipal de Cultura que apareceram pessoalmente e rapidamente na última Praia (dia 18), alegando “sinal verde para o diálogo”. O conteúdo desse diálogo não ficou claramente definido, mas, ao que parece, inicalmente entraria em discussão a questão do decreto e do cercamento da praça.

Entendendo que a praia está sendo uma espécie de plataforma para a discussão de questões várias relativas à cidade de Belo Horizonte, algumas pessoas consideraram interessante pensar em um recorte de assuntos que estão à tona e que talvez possam ser “respondidos” pela Fundação nessa oportunidade, por exemplo:

– Absurdo do Decreto e do cercamento da Praça durante eventos
– Legitimação de megaeventos-relâmpagos patrocinados por grandes empresas em detrimento de projetos locais significativos e de longa data, tais como o FIT e o Arena da Cultura
– Questionamento da existência de uma Fundação no lugar de uma Secretaria Municipal de Cultura
– Problematização da questão dos Piores de Belô
– Outros?

Hoje houve uma manifestação de rua pelo retorno do programa Arena da Cultura, abortado há dois anos pela Prefeitura (assim que Lacerda assumiu o posto) e com falsas promessas de retorno ainda nesse ano. Essa roda de conversa de terça-feira foi divulgada nessa ocasião e algumas pessoas se mostraram interessadas em participar.

O recado tá dado! Façam suas sugestões/ alterações.

Nos vemos na Praça.