Manifesto: LIBERDADE AOS PIORES DE BELÔ

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Longe dos holofotes da Bienal Internacional de Arte de São Paulo e da imprensa especializada sobre arte, a pixação invade a cidade e ainda é duramente reprimida pelo poder.

No dia 24 de agosto, cinco pichadores do grupo conhecido como os Piores de Belô foram presos. A polícia havia pedido a prisão preventiva dos integrantes por formação de quadrilha, pichação, invasão a propriedade alheia, crime ambiental, depredação de patrimônio público e apologia ao tráfico de drogas.

Tal fato não se mostra de forma nenhuma isolado, já que, desde junho do ano passado, a Polícia Civil desencadeou a “Operação BH Mais Limpa”, que resultou no cumprimento de nove mandados de busca e apreensão. Ainda esse ano, a Polícia Civil criará uma delegacia para combater especificamente as gangues de pichadores que agem em Belo Horizonte, fato já amplamente divulgado como uma ação visando a Copa do Mundo. Nos parece óbvio que, com a aproximação da Copa e o ímpeto de gerar uma cidade limpa e asséptica, serão criados cada vez mais novos meios de repressão.

Além dessa nova delegacia, a Prefeitura de Belo Horizonte prevê também uma central de monitoramento eletrônico. As câmeras serão instaladas para vigiar os prédios públicos e locais de grande concentração de pessoas, como o Parque Municipal no Centro, o mirante das Mangabeiras e também a Praça da Estação (que, como já sabemos, é um espaço que só atende às demandas da própria Prefeitura, da socialite Ângela Gutierrez, o seu Museu de Artes e Ofícios e o interesse de grandes empresas que podem pagar o preço absurdo de utilização da praça). Essas novas formas de combate ao crime são legitimadas pela falsa sensação que o cidadão comum tem de que o poder público efetivamente o protege e zela pela boa conservação da cidade quando, na verdade, a cidade só deve estar limpa e bem apresentada para receber o capital estrangeiro que escoará por aqui no período da Copa. Tais ações transformam a cidade em um lindo cartão postal, longe de qualquer uso efetivo e real pelas pessoas.

O preço de toda essa “segurança” e limpeza?! Eis aqui a conhecidíssima resposta: a eterna vigilância e a repressão constante. Tudo pretensamente justificado com pelos dados que a própria prefeitura apresenta, alegando gastar R$ 2 milhões por ano em reparos de equipamentos públicos depredados, incluindo pichações. Parece ser preferível pelo poder público gastar com reparos e repressão do que efetivamente discutir o problema para além do âmbito criminoso. Como transformar jovens com rolinhos de tinta em assaltante ou traficante? Prenda o pixador por formação de quadrilha e enjaule todos juntos! A manobra política efetuada pela força tarefa do Ministério Público em conjunto com Prefeitura e a Polícia Civil para enquadrar os Piores de Belô como uma quadrilha, modificando o procedimento normal dispensado ao delito, além de cruel, é extremamente simplista, reduz a questão a um caso de polícia e encarcera sumariamente os autores de uma das práticas estéticas mais questionadoras do espaço urbano. Nos parece que tal acusação é só uma forma de infligir penas mais duras para aqueles que, como dizem os próprios Piores de Belô, apenas “jogam tintas nas paredes”.

O que nos surpreende é o caso ter sido negligenciado tanto por artistas quanto por “intelectuais”, pois é necessário e urgente que haja uma defesa da pixação, dos Piores de Belô e das movimentações que vão contra os processos de gentrificação que Belo Horizonte está passando. A única defesa pública do fato vem de Deborah Pennachin, doutoranda da Escola de Belas Artes da UFMG que tem como objeto de estudo a pichação e que, ao defendê-los em uma reportagem, afirma: “Para quem estuda, eles são top de linha da pichação em Belo Horizonte”. Sabemos o quanto é provável que a impressa tenha cortado partes importantes do seu argumento, mas não podemos deixar de considerar que defendê-los apenas por seu valor estético, além de ser um argumento fraco, soa oportunista. Afinal, isso pode acontecer com qualquer “pixadorzinho meia-boca” e é o que de fato ocorre: a maioria desses pixadores vive em comunidades carentes onde traficantes e assassinos não passam o que eles passaram nas mãos da polícia por causa da pixação.

Sem entrar em qualquer mérito sobre a pixação, espaços excludentes, relação com a cidade, arte/anti-arte, colocamos a questão: será que só o fato de ser uma medida autoritária que vai aumentar a quantidade de processos desnecessários no judiciário, abarrotar ainda mais nossas cadeias que ferem cotidianamente o básico dos direitos humanos e possivelmente servir de escola de bandidagem para jovens que só andavam por aí armados de rolinhos e tinta, será que só isso não basta para ser contra a prisão destes jovens?

Devemos lembrar que Os Piores de Belô ainda estão detidos por tempo indeterminado em uma unidade comum até que ocorra o julgamento.

publicado em: www.comjuntovazio.wordpress.com/2010/09/28/manifesto-liberdade-aos-piores-de-belo

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13 Respostas to “Manifesto: LIBERDADE AOS PIORES DE BELÔ”

  1. Jaci Pires Says:

    Pra onde leva esta criminalização de tudo: http://gerivaldoneiva.blogspot.com/2010/09/em-prisoes-o-brasil-so-perde-para-eua-e.html

    Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo.

    e pra quê a gente tá mantendo galeroso enjaulado, mesmo?
    o que queremos ensinar?
    o que nos ensinamos?

  2. Jaci Pires Says:

    http://www.hojeemdia.com.br/cmlink/hoje-em-dia/minas/257-pichadores-ja-foram-presos-em-belo-horizonte-1.177457

    257 presos entre janeiro e agosto.

  3. Jaci Pires Says:

    Continuando um clipping:
    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/788339-policia-de-minas-prende-pichadores-por-formacao-de-quadrilha.shtml

    matéria na Falha de São Paulo sobre a novidade mineira.

  4. Tweets that mention Manifesto: LIBERDADE AOS PIORES DE BELÔ « Praça Livre BH -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Paulo Rocha and christiane costa, Coala Croata. Coala Croata said: https://pracalivrebh.wordpress.com/2010/09/29/manifesto-liberdade-aos-piores-de-belo/#comment-437 LIberdade aos Piores de Belô. #freepiores […]

  5. Ludmilla Zago Says:

    Como posso ajudar ou participar das discussões. esse assunto me mobiliza há muito tempo. estou feliz por ver tais notícias. quero contribuir.
    obrigada

    • João Luiz Pereira Tavares Says:

      Pense e reflita.

      DEIXE DE SER CARETA de Maletta:

      13 longos anos de CHARLATANISMO!

      É a mentalidade do Petismo que invade os municípios (seja quem for o prefeito); os Estados (de qualquer Partido) e o país!

      Eh, Brasil!!!

      Brasil vigarista, charlatão, picareta e EMBUSTEIRO.

      Só feiúra (plástico, poluição, sujeira, papel jogado pelo cidadão na rua, pichação em Sampa, música decadente e ruim, brega, baranga, PT, PSOL, Satélites: PCdoB…).

      PT sempre foi VIGARISTA. Charlatão.

      PT ADORA pichação (nas paredes das grandes cidades!). É brega, mesmo.
      Essas aí no muro sempre do OUTRO.

      Chamam pichações arte. rsrs.

      E dizem que não há diferença entre GRAFITTE & PICHAÇÃO.

      São corroborados por professores doutores da USP, os ditos “””intelectuais”””.

      Os tais de inteliGENTINHOS. Todos USP!

      São os teóricos pós-modernos. Que dizem: “TUDO É ARTE.”

      Os alunos acreditam; e veneram.

      Inclusive dizem que Baixa Cultura e Cultura de Massa são Artes. rsrs. Professor doutor. Os pós, também. Tudo apenas charlatanismo.

      Pichação, para PT é Alta Cultura. Pra USP, idem.

      O PT e seus Satélites são barangos. E bregas. E cafonas. E Kitsch.

      Êta, BRASIL!

  6. Liberdade ao Piores de Belô! « Praça Livre BH Says:

    […] https://pracalivrebh.wordpress.com/2010/09/29/manifesto-liberdade-aos-piores-de-belo/ […]

  7. Marcão Says:

    Como defender a pichação? Não é arte e se fosse seria a mais arbitrária, autoritária e ditatorial das manifestações sociais. A arte para ser verdadeira e válida não pode ser imposta.

    A verdadeira arte é aquela em que os apreciadores vão em sua direção. Já os que chamam a pichação de arte, na verdade estão defendendo uma forma de interpretação do mundo sob a ótica da ignorância, do subproduto do crime, da imposição à força às populações de uma estética do mal gosto.

    E ainda vem essa meliante chamada Debora Pennachin usar o dinheiro do contribuinte para defender tese em universidade pública a favor de pichadores.

    E quando saem em defesa destes pseudos-artistas, vocês estão defendo o direito de uma minoria de 200 pichadores contra a vontade de uma população, que no caso de Belo Horizonte é de mais de 2 milhões de pessoas que diz: não queremos esse emporcalhamento da cidade por pichadores criminosos.

  8. RONCO-CH Says:

    NUNCA VÃO ENTENDER QUE PIXAÇÃO E LIBERDADE DE EXPRESSÃO SÓ QUEM TÁ NESSA VIDA AI SABE COMO QUE É , É COISA DE LOCO MAIS COMO DIZ O DITADO NEM TUDO AGRADA A TODOS . NAMORAL PIXAÇÃO NÃO VAI ACABAR NÃO SEIS TÃO PREVENINDO PRA COPA ? PRA PAGAR DE BOMZIN PRA GRINGOS ? QUERO VER DEPOIS OS PROBLEMAS VÃO ESTA AÍ DO MESMO GEITO SABE POR QUE ? VOCÊS ROUBAM DINHEIRO PÚBLICO ATRÁS DE UM PALITO SUJO DE UM CIDADÃO QUE NÃO HONRROU O QUE FEZ VÁRIAS CRIANÇAS SEM COMIDA E ALIMENTO EM QUANTO VOCÊS BEBEM RED LABEL RINDO DA CARA DA GENTE O POVO E HUMILDE , NOSSO LAZER É ESSE . MUNDO INGRATO COMO DIZ A MÚSICA DO FELIPE BOLADAO PARE-SE O PARAÍSO DO LADO DO INFERNO BRASIL MUNDO MODERNO ! PAZ A TODOS ! PIXAÇÃO PRA SEMPRE !!!

  9. Gabriel galego Says:

    Me indigna viver em um mundo onde grafitar é crime e roubar é arte CONECTADOR CG

  10. flavio Says:

    bons vdp tem o certo e o errado se estamos aqui ate hoje,que sme dis irmão

  11. flavio Says:

    lliibbeerrddaaddee aos ppiiooreess de bbeellOO

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