“O cheiro… não é meu… é do ralo…”

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“Apenas num reino eles são livres e lá podem perambular à vontade – mas ainda não aprenderam como levantar vôo. Por enquanto, não houve sonhos que levantaram vôo. Nenhum homem nasceu leve o bastante, descontraído o suficiente, para deixar a terra!”

(Henry Miller, Trópico de Câncer)

A Praia transbordou e desceu pelo ralo da Cultura, tutelada pela Fundação Municipal de Cultura e pelos engajados em produção de eventos… “É tutano, é osso”. Se não pode transbordar em protesto, confrontamento , diversão irrestrita e autonomia, tudo isso cai inevitavelmente na borda, fica à margem, com uso da força ou não.

Há ovelhas saltando de um lugar para outro, definindo que posição querem ocupar perante os empreendimentos de organização da cidade, ovelhas que estão saindo das ruas e indo cafungar o perfume no cangote dos amiguinhos de Lamerda, ovelhas me dizendo que devo agradecer pela sua iniciativa de “abrir brechas” nos emaranhados das burrocracias instituídas. Que preguiça dessa gente! Dessa gente domesticada, submissa, que sempre tem faro para se apropriar de qualquer questão e, por conseguinte, torná-la neutra, acomodá-la, para que não ofereça um fio sequer de ameaça efetiva a qualquer conluio que cheire a falcatrua. Gente cheia de “pegada” pra captar dinheiro público e reproduzir, a partir daí, o fim-em-si do seu “Pão & Rock n’ Roll”.  Um recadinho discreto e clichê:

…é impossível ser neutro num trem em movimento…

Ó velhas histórias que já escutei até fazerem calos em meus ouvidos, desde alguns anos passados. Velhas histórias que presenciei e que já não engulo sem antes engasgar. Pois para lograr qualquer tipo de atenção, aprovações e reconhecimento deve-se aparecer muito, fazer evento GRANDE de estourar os tímpanos e provocar rouquidão na garganta, de tanto esforço para falar, ser ouvido e ouvir. Espetaculice galopante, que me some  e me soma entre as muitas cabeças de uma multidão estúpida. Que atropela a multidão enquanto a entretém. Espetáculo que não troca, a não ser em vias permissíveis. Que vias são essas, afinal? “Quatro vias carimbadas”?

Minha festa tem fogo que queima, que realmente esquenta, que insiste e faz teima. Nela, falo calmamente com qualquer festeiro, não grito acima das vozes ao meu lado. Se alguém contra mim grita,  como falo! Como não calo! Quem está de fato aberto para fruir dela, alimenta a labareda, “bebe na mesma lata, passa a bola e faz o gol”… e não me joga na fogueira para que nela eu carbure como exemplo. Se só caibo na platéia, estou na morada do tédio, bato retirada e não me despeço, pois já não reconheço nada nem ninguém, não partilho de seu sonho médio. Se na festa não cabe o protesto, eu afirmo e atesto: meu fogo dança sem descanso, infesta com chama os salões cobiçados – estreitos e fechados demais para o seu calor. Minha festa é por demais pequena e amorfa, não se encaixa nem se aloja nos limites do seu corredor.

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12 Respostas to ““O cheiro… não é meu… é do ralo…””

  1. Jaci Pires Says:

    Achei o texto muito bem escrito!

    mas… e agora?

  2. [conjunto vazio] Says:

    A situação se mostra clara ou arrumamos algo que nos faça deslocar e sair das já cooptadas ações ou morreremos eternamente na praia.
    (enquanto isso na “sala da justiça” o processo de limpeza da cidade permanece)

  3. Tweets that mention “O cheiro… não é meu… é do ralo…” « Praça Livre BH -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Paulo Rocha and Paulo Rocha, Coala Croata. Coala Croata said: "O cheiro não é meu, é do ralo", no blog do @pracalivre : https://pracalivrebh.wordpress.com/2010/09/20/o-cheiro-nao-e-meu-e-do-ralo/ […]

  4. Marcelo Says:

    Por isso se faz necessário o desaparecimento, ou a organização como zona autônoma temporária. Evento esgotado ou cooptado, as energias podem ser transferidas a novos “campos de batalha”. Uma descendente é inevitável, caso nos acomodemos a um nome estabelecido.

    Sempre haverá imbecis prontos a vender algum produto se apropriando de manifestações construídas para a finalidade oposta, evitar o produto. A Praia se tornará um produto, e já vem se tornando. A primeira notícia que tive foi a apropriação por parte de uma banda de BH para vender camisetas.

    Outros produtos virão, assim como políticos ou as patricinhas do Sion tentarão cooptar para si o movimento.

    Ainda bem que Belo Horizonte possui matéria-prima abundante para gerar mais e mais movimentos, e colocar um espelho na cara dos cafetões que governam/gerenciam a cidade.

    Abraços

  5. Omar Motta Says:

    Jaci… tem um trem em movimento… Que Trem É Esse?!

  6. Gregs Says:

    Assim fala a praça livre!

  7. Rita Paquita Says:

    não, gregs. assim fala quem usa o blog, desde o princípio um blog aberto.

  8. Jaci Pires Says:

    Tô GARRADA nesse trem!

    E adorei o comentário do marcelo!

  9. José Ninguém Says:

    Qual a diferença entre um político usando uma intervenção para ganhos próprios e um produtor cultural usando para ganhar em cima da onda?

  10. Omar Motta Says:

    pitaco: a diferença deve tá em quantos testas de ferro se usa pra um (produtor cultural), enquanto no outro (qualquer zé) é o próprio cu que tá na dança. se é político, se não é…

  11. José Ninguém Says:

  12. Giovanna Borges Says:

    Luther, você foi muito feliz no seus dizeres. No princípio, quando a Praia da Estação era um movimento liderado por Luther´s Blisset´s, que simplesmente queriam fazer uma discussão política, sim POLÍTICA, da forma como a cidade estava sendo desocupada a força, usando como estratégia uma maneira lúdica de mobilização-ocupação, me sentia fazendo parte daquilo. Mas de repente, surgiram oportunistas, que faziam ( e ainda fazem) questão de ser “pais de movimento”, dando entrevistas à imprensa e dando seu nome como resposánveis pelo o que estava acontecendo, se autodenominando criadores do “movimento”.Nas reuniões, queriam dissociar Cultura de Política…em qual mundo vivem esses seres? Está ai a criatura gerada. E dela não faço mais parte.

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