Vendavais e pocilgas (.1)

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v e t o  é  v e n t o

A Praça da Estação não quer ser tocada. Ela foi erguida sob regras tão pudicas, tão requintadas e tímidas, que durante anos serviu apenas como corredor para o desvario da cidade. Fazer um corredor não é tão complicado: basta cercar, soltar os cães no lote e ir tranqüilamente descansar longe, isolado da confusão. El Cerdo nos tem ensinado muito sobre essas facilidades.

O veto de 9 de dezembro deu cria a eventos de qualquer natureza, quando a própria falta de clareza dos termos da proibição deu estímulo ao contrário. Pois toda proibição é de imediato questionável, senão refutável, a não ser que o uso ou a amostra da força a permita se efetivar… sem ouvir, obviamente. Os decretos e pronunciamentos das instâncias da prefeitura não se preocuparam com o teor de cada palavra. Pensou-se que simplesmente decretar já correspondia a garantir um ato proibitivo.

Além daquelas bizarrices suspeitosas sobre eventos de qualquer natureza, veio ainda a Fundação Municipal de Cultura responsabilizar performers, diretores e atores de toda a cidade pelo cancelamento do Festival Internacional de Teatro de Palco e de Rua. As medidas emergenciais de El Cerdo, anunciadas desde dezembro do ano que passou, não pouparam intervenções financeiras nas contas do município, com cortes especiais para o campo da Cultura. Ficaram na penumbra não somente o FIT, mas a Lei de Incentivo, o Projeto Arena da Cultura e espaços que tiveram, na surdina, suas portas fechadas.

Não se trata, antes de tudo, de fazer coro com os especialistas da cultura e seus credores, reclamando por espaço nas negociatas entre técnicos, produtores culturais, profissionais da cultura etc. e a senhora prefeitura. Tampouco de fazer reivindicação por mais grandes eventos na cidade. Menos ainda de pensar que estar do lado da Cultura significa não estar do lado da violência, se furtar ao confronto – ou dissimulá-lo. Trata-se de tentar compreender por que as prioridades dos órgãos municipais se desviaram, supostamente “do nada”, aos objetivos antes traçados, e não mais visam a cumprir com funções antes tiradas, pela pressão, das mãos das burocracias. E ressaltar: a questão não se limita ao dinheiro público que está sendo manuseado conforme o bel-prazer de alguns; é exatamente esse “bel-prazer” o que toca parte dos incômodos. Até mesmo Luther Blissett lançou ao vento perguntas parecidas, e podemos sugerir que o próprio anonimato as soterrou e calou.

Talvez os tempos de eventos já sejam passado: eventos não são, na sua relação com a Praça da Estação, coisa das ilegalidades. O vento frio desse inverno tornou penoso tomar banhos na fonte, enquanto a Praia da Estação saiu de BH, foi a São Paulo e fez fileira no festival higienista da Virada Cultural. A paralisia brotou novamente, a partir daquele momento emblemático de 9 de maio (segundo dia do 2° Eventão): a praça foi bloqueada pelas tropas de Choque, fiscais e guardas municipais, que deixaram em pré-aviso: “se não pagarem, apreenderemos tudo”. Meses depois, chama-se uma reunião com pessoas do “movimento”, e estavam lá presentes as costas mais quentes da PBH: prefeito biônico Márcio, secretário-testa-de-ferro Cabral, dona-desaparecida Thaís Pimentel etc. Humores da de-mo-cra-cia

De praias a saraus, de eventões a encontros semanais, um leque de possiblidades que, no geral, deu início a discussões sobre estar na metrópole de Belo Horizonte, sobre o modo como se tem, há anos, tratado as questões do público e do higienismo urbano que tomou de assalto a cidade. Formou-se uma rede de informações que acelerou as trocas e convocações, deu mais cores às festas-protestos que borbulharam a partir de janeiro. Tudo isso com um detalhe indispensável: os protestos assumiram o caráter de evento, justamente para fazerem desobediência direta a determinações que estavam, então, postas em lei.

A PBH assumiu suas conveniências, trabalhando para desclassificar essas iniciativas, negando a todo momento o caráter evento das ocupações da praça. Diziam que não eram eventos, eram “manifestações populares”. Ao manter essa defesa, pretendia-se re-instaurar uma ordem de coisas que já estava abalada desde seu decreto 13.798. Tentou-se instituir pelo blefe uma paz medonha, que se explicita no número escandaloso de guardas e policiais que rondam muitas regiões da cidade, nas câmeras de segurança espalhadas no entorno do Centro e nas suas políticas de mobilidade urbana que já deixaram muitos espaços da cidade esvaziados. A gestão Lacerda, devo reforçar, dá seguimento a essas políticas, não as inaugura, não as origina – apenas renova contratos entre partes que já atuam desde anos em Belo Horizonte, com salvas extraordinárias para certas famílias consolidadas, aquelas que querem nomes em museus, sobrenomes dos livros de História.

p o l í t i c a s  d e  h i g i e n e  d a  p o c i l g a

Começou a façanha e a PBH se obriga a lidar com um impasse saído de seu próprio ventre. Na sua pretensão de combater depredações ao patrimônio público (suponhamos que se possa de fato crer nisso), trouxe à tona uma série de atrativos ao vandalismo, afetou olhares que se voltaram diretamente à sua peça preciosa. Pois arrancar algo a alguém, privatizar sem restrições, confiscar e colonizar do início ao fim é, também, acender pavio “no marasmo das idéias acanhadas”.

O convite atende a desejos que antecedem a onda de decretos assinados por El Cerdo. Mas sobretudo coloca em discussão o tipo de tratamento que é devido a qualquer patrimônio privatizado, dá-se substrato ao desejo de realmente depredar, causar o dano adequado contra qualquer propriedade privada, qualquer produto de confisco.

A praça é momento congelado nos cartões postais, como se patrimônio só representasse uma História, sem ter história própria. Relação de frigidez suprema, quer-se alheia ao tempo, não pode ter as marcas de uso que o tempo cuida de nela empregar. O mesmo pode ser dito sobre a cidade-vitrine que se quer organizar nos atuais eventos da Coca-Cola. Dá para entender, afinal, o que quer dizer a palavra “exemplo”, quando dita por alguns porta-vozes das bucracias municipais: arrastão dos fiscais contra vendedores ambulantes, muitos serviços empregados, “funcionando”, som que “não incomoda vizinhos”… e muito faz-de-conta.

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