Cidade-empresa é Lamerda!

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Copa e olimpíadas: cidades injustas

No próximo mês de junho terá início a Copa do Mundo de Futebol. A proximidade de um dos maiores campeonatos esportivos do mundo, que será sediado na África do Sul, traz à tona uma série de discussões sobre os contornos que vêm sendo assumidos pela organização dos grandes eventos esportivos em diferentes países, sua relação com as políticas públicas e seu lugar diante das necessidades econômicas do capitalismo em seu atual período de desenvolvimento. No Brasil, sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 (que acontecerão na cidade do Rio de Janeiro), esses debates começam a aparecer com frequência cada vez maior.

Uma das primeiras questões levantadas refere-se ao sentido e aos objetivos do investimento público para a viabilização de megaeventos. Diante da precarização das condições de vida da população e da repetidamente alegada escassez de verbas públicas para políticas sociais, a pergunta é quase imediata: por que priorizar os eventos esportivos? Mais ainda: do ponto de vista do sentido das políticas sociais de esporte, por que optar por um projeto orientado para a realização de eventos de grande porte com muito investimento em detrimento de políticas para a área conectadas ao dia-a-dia e à realidade da maioria da população? A resposta mais comumente ouvida é a de que, além de “movimentar a economia” e gerar empregos, os megaeventos seriam responsáveis por deixar um “legado social” às suas cidades-sede.

Entretanto, segundo Bruno Gawryszewski, bacharel em Educação Física, doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Escola Nacional de Circo, as experiências recentes, como a dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, realizados em 2007, demonstram que esse argumento nem sempre se confirma. “No caso dos Pan, R$ 3,3 bilhões saíram dos cofres públicos e as promessas de novas linhas de transporte aquaviário, expansão do metrô, duplicação de uma das principais auto-estradas do Rio de Janeiro e despoluição das lagoas e da Baía de Guanabara tornaram-se letra morta”, destaca.

Ele analisa que as transformações estruturais urbanas ligadas aos megaeventos esportivos estão relacionadas a um modelo de produção do espaço que visa a projetar as cidades e países-sede como “globais”, ou como territórios propensos a atrair grande aporte de capital. “As metrópoles adotaram uma perspectiva urbana que canalizou grandes obras promovidas pelo Estado com o objetivo de transformar as áreas obsoletas em espaços propícios a receber as atividades da ‘economia pós-industrial’, tais como o setor de serviços, os complexos de lazer e entretenimento, a rede hoteleira e outros”, diz.

Projeto de cidade
Sob essa perspectiva, pesquisadores e movimentos sociais discutem o projeto de cidade desenvolvido na lógica de construção dos megaeventos esportivos. A conversão dos municípios em mercadorias e empresas foi tema de debates no Fórum Social Urbano, uma iniciativa de organizações sociais realizada em março no Rio de Janeiro.

Na ocasião, o professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ), Carlos Vainer, discutiu o aprofundamento desse processo na esteira de realização dos megaeventos. Em sua palestra, (abaixo) disponibilizada pelo Boletim Olhar Virtual, da UFRJ, o professor destacou que “a partir do momento que a cidade é vista como mercadoria, vendê-la se converte em objetivo básico dos governos locais. No planejamento estratégico do Rio, por exemplo, está escrito que um dos problemas da cidade é a visibilidade da população de rua. Ou seja, o ruim não é haver pessoas que não possuem moradia, mas sim elas serem visíveis. Seguindo essa linha de raciocínio, se uma cidade é empresa, ela deve ser entregue a quem entende de negócios. O setor privado deve assumir a gestão das estratégias econômicas locais”, analisou.

O Vainer relacionou, ainda, a realização desses eventos com a criminalização da pobreza: “Um megaevento leva isso ao extremo e gera o que nós podemos chamar de ‘cidade de exceção’, por analogia ao Estado de exceção – uma cidade na qual não vigoram mais as regras de convivência urbana, porque outra razão se impõe. Nela, há o controle direto do capital sobre a direção da cidade. A ‘cidade de exceção’, ao final, permite esconder a pobreza e autoriza a sua criminalização. É o que aconteceu em Johannesburgo, capital da África do Sul, que abrigará a Copa do Mundo de 2010: os vendedores ambulantes foram expulsos das áreas próximas às instalações das competições”, observou.

Novas relações econômicas
Segundo Bruno Gawryszewski, existe uma “indústria do esporte” que movimenta cifras cada vez maiores e associa-se a diversos segmentos do mercado capitalista, elaborando os megaeventos esportivos como seu produto mais desenvolvido. “A grande transformação do campo esportivo pode ser localizada na década de 1970. Ao mesmo tempo em que o capital passava por uma crise com a diminuição de suas taxas de lucro e orquestrava uma reestruturação produtiva da economia, a Federação Internacional de Futebol [Fifa] e o Comitê Olímpico Internacional [COI] foram assumidos por gestões que as alinharam plenamente aos interesses mercantis. A partir daí abriu-se um modelo de organização esportiva em que agentes privados controlam a organização dos torneios e a gestão de equipes através de uma lógica empresarial”, conta.

No entanto, o desenvolvimento da “indústria do esporte” só pode ser compreendido por completo se inserido no contexto das necessidades colocadas para a reprodução do capital em seu atual estágio de desenvolvimento. É o que analisam Gawryszewski e Adriana Penna, professora de educação física e doutoranda em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no artigo “O esporte na nova geografia esportiva mundial: vias de expansão do capitalismo monopolista”.

A partir da análise dos dados referentes ao montante de capital investido e obtido com a realização dos megaeventos, do levantamento dos locais em que são prioritariamente realizados e da investigação teórica sobre sua inserção na economia mundial, os pesquisadores discutem a relação entre a promoção dos megaeventos esportivos, sobretudo a partir dos formatos que assumiram nos anos 2000, e o processo de reprodução do capital durante as chamadas “crises de sobreacumulação”, apontando os megaeventos como uma forma de responder a essas crises através da exportação de capitais. Isso quer dizer que, diante das dificuldades enfrentadas pelo capitalismo (que precisa produzir cada vez mais e, com isso, cria sistemáticas crises de superprodução e acumulação de capitais), uma saída para reinvestir o dinheiro que “sobra” – ou não encontra aplicação imediata e acaba se desvalorizando – tem sido a realização desses eventos.

A expansão geográfica e a reorganização espacial dos investimentos aparecem como uma forma de valorizar esse capital. Nesse mecanismo, o capital excedente precisa ser deslocado para projetos de longo prazo, sobretudo a partir da construção de grandes infraestruturas físicas que se desenvolvam ao longo de muitos anos, para que seja “reciclado” e volte ao circuito econômico – aliviando, temporariamente, o problema da sobreacumulação. Mas, para viabilizar isso, surge uma outra necessidade: diante da concorrência, os investidores buscam aplicar esse capital nos locais de menores custos e maiores taxas de lucro. Por isso, os maiores eventos esportivos passam a ser realizados, a partir desta década, nas nações em desenvolvimento. “Nesses países, a possibilidade de exploração do trabalho se faz com menor resistência, tanto por conta dos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores quanto pelas condições de reação da classe, que, em geral, encontra-se em processo de fragmentação e refluxo de suas lutas”, avalia Adriana Penna.

Produção para a destruição
Por fim, um outro elemento salientado pelos pesquisadores é o processo de produção e subsequente destruição física dos grandes estádios destinados aos megaeventos esportivos. Segundo eles, esse processo acontece em todo o mundo e soma-se à permanente criação de necessidades de consumo ligadas ao mercado esportivo e todo o seu aparato e infraestrutura.

No artigo “Guerra ou paz: o esporte como produção destrutiva” (anexo), Gawryszewski e Penna analisam os casos de demolição de estádios e lembram que muitas estruturas construídas para o Pan do Rio de Janeiro já estão abandonadas. “Embora as arenas construídas não tenham sido literalmente demolidas até o momento, transformaram-se em estruturas obsoletas. Quando muito, são entregues pelo poder público à iniciativa privada – sob contratos de longa duração e a preços insignificantes, se comparados ao custo que representaram ao orçamento público”, destacam.

Segundo Gawryszewski, a “produção destrutiva” (conceito desenvolvido pelo filósofo húngaro Istvan Mészáros) insere-se no contexto das crises capitalistas como uma estratégia de aceleração da circulação do capital excedente – ou seja, uma forma de o capital realizar o seu valor. “Parece irracional e, de fato, é. A construção e destruição de arenas e estádios esportivos são defendidas pelos dirigentes esportivos como mero procedimento que visa a adequá-los tecnicamente às exigências das federações esportivas. Mas representam os interesses de certas frações burguesas, como o setor imobiliário, hoteleiro, do entretenimento e empreiteiras, que são envolvidos direta ou indiretamente na indústria do esporte”, finaliza.
Megaeventos podem transformar Rio em ‘cidade de exceção’
Aline Durães
Que projeto de cidade estamos desenvolvendo? Os debates acerca dos rumos do Rio de Janeiro como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 levam em consideração a vontade popular? Para responder a essas e outras questões, urbanistas, pesquisadores e sociólogos de várias partes do mundo organizaram, de 23 a 26 de março, no Centro do Rio, o “Fórum Social Urbano”.
O evento teve como objetivo criar um espaço de discussão paralelo ao “V Fórum Urbano Mundial”, realizado pela Agência Habitat da Organização das Nações Unidas (ONU), nos mesmos dias e também na capital fluminense. 
Dividido em quatro eixos temáticos — “Criminalização da pobreza e violência urbana”, “Megaeventos e a globalização das cidades”, “Justiça ambiental da cidade” e “Grandes projetos urbanos, áreas centrais e portuárias”—, o “Fórum Social Urbano” se configura como uma possibilidade de pensar as cidades contemporâneas e de promover debates acerca da democratização dos espaços.
Palestrante do evento, Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, falou sobre o modelo atual de planejamento das cidades. De acordo com o pesquisador, a cidade, hoje, adquiriu status de mercadoria, de empresa e de pátria. Dentre as consequências desse processo, estão a despolitização e a crescente competição entre os governos locais por capitais estrangeiros. Confira abaixo a palestra de Carlos Vainer na íntegra:
Carlos Vainer
Professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR)
Nos anos 1980, instalou-se uma crise do planejamento tradicional que dominou o Brasil nas décadas anteriores. Aquele era um planejamento tecnocrático centralista autoritário, que sofreu ataques da esquerda democrática e da direita. A esquerda questionou seu caráter autoritário e convocou maior participação social no planejamento. Já a direita o atacou por considerá-lo intervencionista e não respeitar o mercado. 
O novo modelo veio atender uma perspectiva estratégica que encara as cidades como sendo submetidas às mesmas transformações das empresas. São os mesmos desafios. Para alguns teóricos, as cidades tomam consciência de que a economia se produz numa competição entre territórios. E vivem, portanto, a mesma realidade das empresas. O objetivo é, então, organizar o espaço urbano e dar à cidade um lugar melhor no sistema competitivo.
A cidade passa a ser pensada como mercadoria, como empresa e como pátria. 
A partir do momento que a cidade é vista como mercadoria, vendê-la se converte em objetivo básico dos governos locais. Existem múltiplos clientes, mas o preferencial é o grande capital internacional. Nesse sentido, o marketing urbano se transforma no modelo de gestão da cidade. Se pegarmos o planejamento estratégico do Rio de Janeiro, de Lisboa ou de qualquer outra cidade, veremos que são muito parecidos.
O importante não é o que a cidade é, mas sim o que ela oferece para atrair os capitais. Começamos então a vender imagens. No planejamento estratégico do Rio, por exemplo, está escrito que um dos problemas da cidade é a visibilidade da população de rua. Ou seja, o ruim não é haver pessoas que não possuem moradia, mas sim elas serem visíveis. Se nós conseguirmos escondê-las, nosso imbróglio está resolvido. A miséria se torna um problema paisagístico. Nesse sentido, a cidade é pensada como uma mercadoria de luxo; não é qualquer um que pode tê-la.
Na concepção da cidade como uma empresa, ela deixa de ser vendida como um produto e passa a agir como uma empresa. Alguns urbanistas dizem que as grandes cidades são as multinacionais do século XXI. Seguindo essa linha de raciocínio, se uma cidade é empresa, ela deve então ser entregue a quem entende de negócios. O setor privado deve assumir a gestão das estratégias econômicas locais. É o que eu chamo de democracia direta. Uma democracia gerida não pelo povo, mas sim pelo capital. Essa cidade-empresa não é, entretanto, o lugar da política ou da cidadania. É o lugar do trabalho, da produção para o crescimento da nação. 
Já a cidade como pátria inviabiliza a crítica. Se a nossa cidade está em guerra com outras numa competição sem quartel, todos aqueles que levantam críticas, toda divergência é uma ameaça à competitividade, à vitória. O crítico divide a pátria na guerra pela atração de capitais. Há aqui, um profundo esforço de esmagar a cidade como lugar de política e submetê-la como local de negócio. 
Se o processo de transformação da cidade em mercadoria, empresa e pátria é  o processo de despolitização da cidade, eu poderia dizer que um megaevento, como uma Copa ou as Olimpíadas por exemplo, leva isso ao extremo e gera o que nós podemos chamar de cidade de exceção, por analogia ao estado de exceção. É aquela cidade onde não vigoram mais as regras de convivência urbana, porque outra razão se impõe. Nela, há o controle direto do capital sobre a direção da cidade. 
A cidade de exceção, ao final, penetra o conjunto do tecido urbano, permitindo esconder a pobreza e autorizando a criminalização dessa pobreza. É o que aconteceu em Johannesburgo, capital da África do Sul, que abrigará a Copa do Mundo, em 2010. Os vendedores ambulantes foram expulsos das áreas próximas às instalações das competições. A experiência sul-africana é a promessa do que será o Rio de Janeiro e dos problemas que enfrentaremos aqui.

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