Archive for junho \27\UTC 2010

2014 – Impactos da Copa do Mundo no Brasil

junho 27, 2010

Okupa Flor do Asfalto ameaçada de desalojo

[A Okupa Flor do Asfalto, um espaço libertário político e cultural situado no Rio de Janeiro está sob risco de despejo. No dia 21 de junho último o local foi “visitado” por uma autoridade judicial com um mandato de reintegração de posse do imóvel. A seguir uma nota da okupação.] (more…)

reunião!

junho 23, 2010

Cidade-empresa é Lamerda!

junho 22, 2010

Copa e olimpíadas: cidades injustas

No próximo mês de junho terá início a Copa do Mundo de Futebol. A proximidade de um dos maiores campeonatos esportivos do mundo, que será sediado na África do Sul, traz à tona uma série de discussões sobre os contornos que vêm sendo assumidos pela organização dos grandes eventos esportivos em diferentes países, sua relação com as políticas públicas e seu lugar diante das necessidades econômicas do capitalismo em seu atual período de desenvolvimento. No Brasil, sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 (que acontecerão na cidade do Rio de Janeiro), esses debates começam a aparecer com frequência cada vez maior.

Uma das primeiras questões levantadas refere-se ao sentido e aos objetivos do investimento público para a viabilização de megaeventos. Diante da precarização das condições de vida da população e da repetidamente alegada escassez de verbas públicas para políticas sociais, a pergunta é quase imediata: por que priorizar os eventos esportivos? Mais ainda: do ponto de vista do sentido das políticas sociais de esporte, por que optar por um projeto orientado para a realização de eventos de grande porte com muito investimento em detrimento de políticas para a área conectadas ao dia-a-dia e à realidade da maioria da população? A resposta mais comumente ouvida é a de que, além de “movimentar a economia” e gerar empregos, os megaeventos seriam responsáveis por deixar um “legado social” às suas cidades-sede.

Entretanto, segundo Bruno Gawryszewski, bacharel em Educação Física, doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Escola Nacional de Circo, as experiências recentes, como a dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, realizados em 2007, demonstram que esse argumento nem sempre se confirma. “No caso dos Pan, R$ 3,3 bilhões saíram dos cofres públicos e as promessas de novas linhas de transporte aquaviário, expansão do metrô, duplicação de uma das principais auto-estradas do Rio de Janeiro e despoluição das lagoas e da Baía de Guanabara tornaram-se letra morta”, destaca.

Ele analisa que as transformações estruturais urbanas ligadas aos megaeventos esportivos estão relacionadas a um modelo de produção do espaço que visa a projetar as cidades e países-sede como “globais”, ou como territórios propensos a atrair grande aporte de capital. “As metrópoles adotaram uma perspectiva urbana que canalizou grandes obras promovidas pelo Estado com o objetivo de transformar as áreas obsoletas em espaços propícios a receber as atividades da ‘economia pós-industrial’, tais como o setor de serviços, os complexos de lazer e entretenimento, a rede hoteleira e outros”, diz.

Projeto de cidade
Sob essa perspectiva, pesquisadores e movimentos sociais discutem o projeto de cidade desenvolvido na lógica de construção dos megaeventos esportivos. A conversão dos municípios em mercadorias e empresas foi tema de debates no Fórum Social Urbano, uma iniciativa de organizações sociais realizada em março no Rio de Janeiro.

Na ocasião, o professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ), Carlos Vainer, discutiu o aprofundamento desse processo na esteira de realização dos megaeventos. Em sua palestra, (abaixo) disponibilizada pelo Boletim Olhar Virtual, da UFRJ, o professor destacou que “a partir do momento que a cidade é vista como mercadoria, vendê-la se converte em objetivo básico dos governos locais. No planejamento estratégico do Rio, por exemplo, está escrito que um dos problemas da cidade é a visibilidade da população de rua. Ou seja, o ruim não é haver pessoas que não possuem moradia, mas sim elas serem visíveis. Seguindo essa linha de raciocínio, se uma cidade é empresa, ela deve ser entregue a quem entende de negócios. O setor privado deve assumir a gestão das estratégias econômicas locais”, analisou.

O Vainer relacionou, ainda, a realização desses eventos com a criminalização da pobreza: “Um megaevento leva isso ao extremo e gera o que nós podemos chamar de ‘cidade de exceção’, por analogia ao Estado de exceção – uma cidade na qual não vigoram mais as regras de convivência urbana, porque outra razão se impõe. Nela, há o controle direto do capital sobre a direção da cidade. A ‘cidade de exceção’, ao final, permite esconder a pobreza e autoriza a sua criminalização. É o que aconteceu em Johannesburgo, capital da África do Sul, que abrigará a Copa do Mundo de 2010: os vendedores ambulantes foram expulsos das áreas próximas às instalações das competições”, observou.

Novas relações econômicas
Segundo Bruno Gawryszewski, existe uma “indústria do esporte” que movimenta cifras cada vez maiores e associa-se a diversos segmentos do mercado capitalista, elaborando os megaeventos esportivos como seu produto mais desenvolvido. “A grande transformação do campo esportivo pode ser localizada na década de 1970. Ao mesmo tempo em que o capital passava por uma crise com a diminuição de suas taxas de lucro e orquestrava uma reestruturação produtiva da economia, a Federação Internacional de Futebol [Fifa] e o Comitê Olímpico Internacional [COI] foram assumidos por gestões que as alinharam plenamente aos interesses mercantis. A partir daí abriu-se um modelo de organização esportiva em que agentes privados controlam a organização dos torneios e a gestão de equipes através de uma lógica empresarial”, conta.

No entanto, o desenvolvimento da “indústria do esporte” só pode ser compreendido por completo se inserido no contexto das necessidades colocadas para a reprodução do capital em seu atual estágio de desenvolvimento. É o que analisam Gawryszewski e Adriana Penna, professora de educação física e doutoranda em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no artigo “O esporte na nova geografia esportiva mundial: vias de expansão do capitalismo monopolista”.

A partir da análise dos dados referentes ao montante de capital investido e obtido com a realização dos megaeventos, do levantamento dos locais em que são prioritariamente realizados e da investigação teórica sobre sua inserção na economia mundial, os pesquisadores discutem a relação entre a promoção dos megaeventos esportivos, sobretudo a partir dos formatos que assumiram nos anos 2000, e o processo de reprodução do capital durante as chamadas “crises de sobreacumulação”, apontando os megaeventos como uma forma de responder a essas crises através da exportação de capitais. Isso quer dizer que, diante das dificuldades enfrentadas pelo capitalismo (que precisa produzir cada vez mais e, com isso, cria sistemáticas crises de superprodução e acumulação de capitais), uma saída para reinvestir o dinheiro que “sobra” – ou não encontra aplicação imediata e acaba se desvalorizando – tem sido a realização desses eventos.

A expansão geográfica e a reorganização espacial dos investimentos aparecem como uma forma de valorizar esse capital. Nesse mecanismo, o capital excedente precisa ser deslocado para projetos de longo prazo, sobretudo a partir da construção de grandes infraestruturas físicas que se desenvolvam ao longo de muitos anos, para que seja “reciclado” e volte ao circuito econômico – aliviando, temporariamente, o problema da sobreacumulação. Mas, para viabilizar isso, surge uma outra necessidade: diante da concorrência, os investidores buscam aplicar esse capital nos locais de menores custos e maiores taxas de lucro. Por isso, os maiores eventos esportivos passam a ser realizados, a partir desta década, nas nações em desenvolvimento. “Nesses países, a possibilidade de exploração do trabalho se faz com menor resistência, tanto por conta dos baixíssimos salários pagos aos trabalhadores quanto pelas condições de reação da classe, que, em geral, encontra-se em processo de fragmentação e refluxo de suas lutas”, avalia Adriana Penna.

Produção para a destruição
Por fim, um outro elemento salientado pelos pesquisadores é o processo de produção e subsequente destruição física dos grandes estádios destinados aos megaeventos esportivos. Segundo eles, esse processo acontece em todo o mundo e soma-se à permanente criação de necessidades de consumo ligadas ao mercado esportivo e todo o seu aparato e infraestrutura.

No artigo “Guerra ou paz: o esporte como produção destrutiva” (anexo), Gawryszewski e Penna analisam os casos de demolição de estádios e lembram que muitas estruturas construídas para o Pan do Rio de Janeiro já estão abandonadas. “Embora as arenas construídas não tenham sido literalmente demolidas até o momento, transformaram-se em estruturas obsoletas. Quando muito, são entregues pelo poder público à iniciativa privada – sob contratos de longa duração e a preços insignificantes, se comparados ao custo que representaram ao orçamento público”, destacam.

Segundo Gawryszewski, a “produção destrutiva” (conceito desenvolvido pelo filósofo húngaro Istvan Mészáros) insere-se no contexto das crises capitalistas como uma estratégia de aceleração da circulação do capital excedente – ou seja, uma forma de o capital realizar o seu valor. “Parece irracional e, de fato, é. A construção e destruição de arenas e estádios esportivos são defendidas pelos dirigentes esportivos como mero procedimento que visa a adequá-los tecnicamente às exigências das federações esportivas. Mas representam os interesses de certas frações burguesas, como o setor imobiliário, hoteleiro, do entretenimento e empreiteiras, que são envolvidos direta ou indiretamente na indústria do esporte”, finaliza.
Megaeventos podem transformar Rio em ‘cidade de exceção’
Aline Durães
Que projeto de cidade estamos desenvolvendo? Os debates acerca dos rumos do Rio de Janeiro como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 levam em consideração a vontade popular? Para responder a essas e outras questões, urbanistas, pesquisadores e sociólogos de várias partes do mundo organizaram, de 23 a 26 de março, no Centro do Rio, o “Fórum Social Urbano”.
O evento teve como objetivo criar um espaço de discussão paralelo ao “V Fórum Urbano Mundial”, realizado pela Agência Habitat da Organização das Nações Unidas (ONU), nos mesmos dias e também na capital fluminense. 
Dividido em quatro eixos temáticos — “Criminalização da pobreza e violência urbana”, “Megaeventos e a globalização das cidades”, “Justiça ambiental da cidade” e “Grandes projetos urbanos, áreas centrais e portuárias”—, o “Fórum Social Urbano” se configura como uma possibilidade de pensar as cidades contemporâneas e de promover debates acerca da democratização dos espaços.
Palestrante do evento, Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ, falou sobre o modelo atual de planejamento das cidades. De acordo com o pesquisador, a cidade, hoje, adquiriu status de mercadoria, de empresa e de pátria. Dentre as consequências desse processo, estão a despolitização e a crescente competição entre os governos locais por capitais estrangeiros. Confira abaixo a palestra de Carlos Vainer na íntegra:
Carlos Vainer
Professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR)
Nos anos 1980, instalou-se uma crise do planejamento tradicional que dominou o Brasil nas décadas anteriores. Aquele era um planejamento tecnocrático centralista autoritário, que sofreu ataques da esquerda democrática e da direita. A esquerda questionou seu caráter autoritário e convocou maior participação social no planejamento. Já a direita o atacou por considerá-lo intervencionista e não respeitar o mercado. 
O novo modelo veio atender uma perspectiva estratégica que encara as cidades como sendo submetidas às mesmas transformações das empresas. São os mesmos desafios. Para alguns teóricos, as cidades tomam consciência de que a economia se produz numa competição entre territórios. E vivem, portanto, a mesma realidade das empresas. O objetivo é, então, organizar o espaço urbano e dar à cidade um lugar melhor no sistema competitivo.
A cidade passa a ser pensada como mercadoria, como empresa e como pátria. 
A partir do momento que a cidade é vista como mercadoria, vendê-la se converte em objetivo básico dos governos locais. Existem múltiplos clientes, mas o preferencial é o grande capital internacional. Nesse sentido, o marketing urbano se transforma no modelo de gestão da cidade. Se pegarmos o planejamento estratégico do Rio de Janeiro, de Lisboa ou de qualquer outra cidade, veremos que são muito parecidos.
O importante não é o que a cidade é, mas sim o que ela oferece para atrair os capitais. Começamos então a vender imagens. No planejamento estratégico do Rio, por exemplo, está escrito que um dos problemas da cidade é a visibilidade da população de rua. Ou seja, o ruim não é haver pessoas que não possuem moradia, mas sim elas serem visíveis. Se nós conseguirmos escondê-las, nosso imbróglio está resolvido. A miséria se torna um problema paisagístico. Nesse sentido, a cidade é pensada como uma mercadoria de luxo; não é qualquer um que pode tê-la.
Na concepção da cidade como uma empresa, ela deixa de ser vendida como um produto e passa a agir como uma empresa. Alguns urbanistas dizem que as grandes cidades são as multinacionais do século XXI. Seguindo essa linha de raciocínio, se uma cidade é empresa, ela deve então ser entregue a quem entende de negócios. O setor privado deve assumir a gestão das estratégias econômicas locais. É o que eu chamo de democracia direta. Uma democracia gerida não pelo povo, mas sim pelo capital. Essa cidade-empresa não é, entretanto, o lugar da política ou da cidadania. É o lugar do trabalho, da produção para o crescimento da nação. 
Já a cidade como pátria inviabiliza a crítica. Se a nossa cidade está em guerra com outras numa competição sem quartel, todos aqueles que levantam críticas, toda divergência é uma ameaça à competitividade, à vitória. O crítico divide a pátria na guerra pela atração de capitais. Há aqui, um profundo esforço de esmagar a cidade como lugar de política e submetê-la como local de negócio. 
Se o processo de transformação da cidade em mercadoria, empresa e pátria é  o processo de despolitização da cidade, eu poderia dizer que um megaevento, como uma Copa ou as Olimpíadas por exemplo, leva isso ao extremo e gera o que nós podemos chamar de cidade de exceção, por analogia ao estado de exceção. É aquela cidade onde não vigoram mais as regras de convivência urbana, porque outra razão se impõe. Nela, há o controle direto do capital sobre a direção da cidade. 
A cidade de exceção, ao final, penetra o conjunto do tecido urbano, permitindo esconder a pobreza e autorizando a criminalização dessa pobreza. É o que aconteceu em Johannesburgo, capital da África do Sul, que abrigará a Copa do Mundo, em 2010. Os vendedores ambulantes foram expulsos das áreas próximas às instalações das competições. A experiência sul-africana é a promessa do que será o Rio de Janeiro e dos problemas que enfrentaremos aqui.

performações

junho 20, 2010

Copa-cola, cola?

junho 18, 2010

Pessoas estão parabenizando o movimento, uma vez que está ocorrendo o mega evento da copa na Praça da Estação.

Eu, particurlamente, não me sinto uma vitoriosa. Os motivos são semelhantes aos que já foram expostos aqui no site, que mostra as incoerências dessa conquista …  Aluguel “privatização de bem público”; padrão das estruturas montadas que nos aprisionam e seleciona o acesso…

Enfim, talvéz com os mega eventos a principio, patrocinados pela prefeitura, nossos banhos de sol deixem de ter coro. Entretanto, penso o movimento da praça como uma das manifestações de OCUPAÇÃO da CIDADE  e esse movimento, essa ação e reflexão temos que continuar lutando/agindo.

E a Copa-cola, cola?

Para alguns, colou, talvés para a maioria… Mas, ainda ficam questões:

Será que a moeda será a troca de alimentos em 2014?

E  a área do Isidoro sobreviverá as construções de hoteis e reformas para receber a copa?

Para onde vão os moradores de rua? Como ficará a situação por exemplo de Dandara e outras OCUPAÇÕES  que ainda não conseguiram visibilidade e politicas urbanas EFETIVAS?

Mesmo em tempos de frio e copa, não vamos deixar de OCUPAR A CIDADE em prol das causas que resistem a desigualdade, que lutam a favor da cultura, da criatividade, dos espaços livres de acesso e direitos realmente igualitários.

Débora  Alves

14 de junho de 2010

14 de junho de 2010

COPA-COLA NÃO COLA!

junho 11, 2010

Porcos e Furacões

junho 10, 2010

postado em http://diasemcompras.wordpress.com

O olho no furacão

[ou a dialética dos porcos]

“Um belo dia, a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento.” (João do Rio, A alma encantadora das ruas)

“(…) o termo ‘público’ significa o próprio mundo, na medida em que é comum a todos nós e diferente do lugar que nos cabe dentro dele.” (Hannah Arendt, A condição humana)

Muitos já devem estar sabendo das últimas “resoluções” em torno da sitiada Praça da Estação. Aliás, convenhamos que não cabe mais o termo, pois de “sitiada” hoje a praça não tem nada. Nos ditos de aluguel, deve-se pagar um mínimo de 9600 reais para a realização de “eventos culturais” ali, mas talvez esse nem seja realmente o ponto. Lembro-me de textos que correram por essas redes, que curiosamente narravam em etapas as pretensões que são hoje publicadas como projetos da PBH para a cidade. Vários alertas já repercutiam desde antes, esboçados em investidas similares, em São Paulo, Porto Alegre, Barcelona, Buenos Aires, e que no Rio de Janeiro assume a insígnia semi-fascista de Choque de Ordem. Falo desses projetos que conheço, alguns à distância, outros na vivência dessas cidades. Vivo é o olho em Belo Horizonte… e viva também está a porcalhada. (more…)

Video: Autoritarismo e Descaso

junho 7, 2010

Materia no Jornal O Tempo

junho 7, 2010

Espaço público. Decreto que cobra pelo uso da praça da Estação gera protestos e indignação de artistas e intelectuais da cidade

Quando o público se torna privado

Douglas Resende e Julia Guimarães

Na trajetória do Grupo Galpão, por diversas vezes a praça da Estação serviu de palco aberto para seus espetáculos. Essencialmente um grupo de teatro de rua, eles apresentaram lá “Romeu e Julieta” e “Um Molière Imaginário”, alcançando um contato delicado e mais direto com o público, que estaria ali numa comunicação olho no olho, trazendo belos e raros momentos de poesia para o centro da cidade.

Esses momentos, no entanto, correm o risco de não voltar a acontecer, depois da decisão imposta pela Prefeitura de Belo Horizonte, no início do mês passado, estabelecendo valores entre R$ 9 mil e R$ 19 mil para a realização de eventos no local.

“Com uma taxa dessas torna-se completamente inviável fazer eventos delicados como teatro”, diz Inês Peixoto, atriz do Galpão. “Mesmo para nós, que somos um grupo com patrocínio da Petrobras, é completamente inviável”.

O Galpão é tomado aqui apenas como um exemplo de como a restrição ao uso da praça da Estação tem gerado preocupação. Nos últimos meses, muitos protestos têm sido feitos na própria praça, no que foi chamado de “Praia da Estação”. Um deles, no dia 9 de maio, foi impedido pela polícia e fiscais da prefeitura. “Nos disseram que poderíamos fazer um evento quando quiséssemos, desde que fosse paga a taxa da licença. Isso é uma proibição velada”, comenta Guto Borges, músico do Dead Lover’s Twisted Heart, grupo que tocaria naquele dia.

Antes disso, uma audiência pública havia sido convocada na Câmara Municipal pelo vereador Arnaldo Godoy na tentativa de ampliar o debate com a prefeitura, já que a decisão havia sido tomada de “forma arbitrária”, como diz Godoy. “Achamos que os critérios são muito rigorosos”, continua ele, referindo-se ao cercamento do espaço para limitar o número de pessoas.

Se, mesmo com patrocínio da Petrobras, o Galpão não teria condições de realizar um evento na praça, pressupõe-se que apenas grandes corporações poderiam – por exemplo, a Coca-Cola, que organiza, junto com a prefeitura, grandes eventos na praça da Estação durante a Copa do Mundo.

“O que é espaço público livre acaba. Vira um espaço público como lugar de marketing”, diz a historiadora e urbanista Myriam Bahia Lopes, professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo (EAU) da UFMG, acrescentando que se trata de um movimento mais amplo da sociedade atual. “É uma grande briga por ocupação total do espaço público como espaço de marketing. E não sobre espaço como uma questão da vida da cidade”, continua Myriam: “O prefeito diz que a população não pode, mas tal empresa pode. Porque quem paga pode”, avalia a pesquisadora.

As transformações pelas quais a praça da Estação está passando têm a ver, portanto, com a forma como a cidade e seus espaços são olhados politicamente. “Faz parte de uma mentalidade que identifica o espaço público não como um espaço público livre, mas como ‘cidade espetáculo’. A cidade se torna mera tela de projeção para a vida”, diz a professora. “São opções políticas. Outras cidades tomam outras opções e resistem a essa pressão”.

O resultado, continua ela, é a formação de uma população feita de consumidores e “não de pessoas que possam ter uma relação criativa com a cidade”. (more…)

Brasil: Multidões fazem Praia numa Cidade de Montanha

junho 5, 2010
Este post foi originalmente publicado no website GLOBAL VOICES em Inglês a 4 de Junho de 2010, com versão em Português adicionada a 5 de Junho de 2010.

Quando no final do ano passado, a prefeitura de Belo Horizonte publicou um decreto proibindo eventos de qualquer natureza numa das praças mais populares da cidade, certamente não esperava trazer “vida de praia” a uma cidade nas montanhas do interior brasileiro.

Belo Horizonte é a cidade capital do estado de Minas Gerais na região sudeste do Brasil. Longe da costa, rodeada de montanhas, a cidade tem uma vida cultural vibrante com espaço para todas as sub-culturas e contra-culturas co-existirem e se expressarem em várias ocasiões prazeirosas. Praça da Estação é um dos lugares mais populares proporcionando tais encontros.

Fotografia: João Perdigão

Foi aqui que a cidade nasceu literalmente, pois é aqui o local da velha estação central, que servia de “porto de entrada” para pessoas e materiais durante a construção de Belo Horizonte no final do século XIX. A ferrovia ainda é usada por quem chega das regiões oeste e norte da cidade, e possui uma linha até à cidade de Vitória, capital do estado vizinho Espírito Santo. O velho edifício da estação foi transformado no Museu de Artes e Ofícios trazendo turistas ao centro da cidade. A enorme praça em frente da estação foi renovada nos últimos anos e até possui duas convidativas fontes construídas ao nível do chão da praça para poderem ser desligadas quando de grandes aglomerações. Praça da Estação é também o ponto de partida da Bicicletada de Belo Horizonte, e o principal ponto do popular festival anual Arraial de Belô, assim como outros shows ao vivo e eventos variados que iluminam a vida social dos Belorizontinos. Ou era?

Em Dezembro último, num decreto publicado pelo Prefeito da cidade, a praça ficou condenada a se tornar num espaço vazio com base na necessidade de garantir a segurança pública, manter aglomerações no minimo e preservar o patrimonio público. Imediatamente, a decisão encontrou forte oposição dos cidadãos, para quem a praça é parte essencial da vida cultural da cidade e que, com seus impostos, contribuíram para a sua renovação. Blogueiros discutiram a nova lei, pondo a possibilidade de que o decreto seja um passo no caminho para a gentrificação, em preparação para os jogos olímpicos de 2014.

Um protesto chamado Vá de Branco tomou lugar a 7 de janeiro, juntando cerca de 50 pessoas que procuravam respostas:

Porque a Secretaria de Segurança Patrimonial não propôs um debate com a população sobre a depredação na Praça da Estação?
Porque os eventos foram proibidos na Praça da Estação e não na Praça do Papa?
Porque poucas pessoas entram no Museu de Artes e Ofícios que fica na Praça da Estação?
Qual é o maior espaço central para eventos gratuitos em Belo Horizonte? Quais foram as depredações dos últimos eventos?

Neste encontro ficou assente a necessidade de iniciar um movimento de raízes populares, não partidário e a favor de uma cultura local e gratuita. E das discussões que se seguiram, uma nova ideia nasceu: encontros na praça aos sabádos, com pic-nic, bebidas, bikini e calção, toalhas, chapéus, tambores e guitarras. Em resumo, fazer da praça uma praia na cidade. Uma ideia espalhada pelas redes sociais cibernáuticas e posta em prática por cidadãos locais.

Fotografia: Luiz Navarro

Desde então, a Praia da Estação tornou-se paragem obrigatória nos circuitos rotineiro de sábado dos perambulantes urbanos. Um protesto tranquilo, com humor e no entanto assertivo, um ato de desobediência civil que faz as delícias de vendedores de rua e bares à volta da praça. As fontes, que normalmente são ligadas às 11h e 17h em ponto, permanecem estranhamente fechadas aos sábados, mas os manifestantes ocasionalmente fazem uma coleta e pagam para que um camião-pipa venha dar umas mangueiradas na multidão.

Outras tentativas para agitar a Praia da Estação foram os Eventões, uma chamada à população para trazer “eventos de qualquer natureza” a uma praça onde supostamente estes foram proibidos. Os Eventões juntaram centenas de pessoas e causaram alguma tensão quando a polícia interveio para não deixar o povo instalar sistemas de som. O primeiro Eventão acabou com os “veraneantes” ocupando a estrada e bloqueando o trânsito, até chegar no também popular Viaduto, a apenas alguns quarteirões da praça, bem conhecido como o local do Duelo de MCs de Belo Horizonte todas as sextas à noite.

O blog aberto Praça Livre BH tornou-se mais do que um mero informativo de todos os acontecimentos na praia. O seu foco foi ampliado a temas de gentrificação, despejos e ocupações, oferecendo solidariedade a outros movimentos populares no Brasil, como o dos estudantes de Florianópolis, que lutam por transporte público grátis. E alguns dos veraneantes que protestam relaxadamente ao sábado, levam as coisas bem a sério durante a semana, participando em audiências públicas na Prefeitura. A primeira aconteceu a 24 de março e apesar da ausência de altos membros do poder local – como o Prefeito Márcio Lacerda, o presidente da fundação para a cultura local Taís Pimentel, o secretário de administração local Fernando Cabral, e o presidente da Belotur (companhia de turismo da cidade) Júlio Pires – os manifestantes puderam articular suas preocupações em relação aos usos dados a espaços públicos pagos com dinheiros públicos, à chefe do gabinete regional Ângela Maria Ferreira que representava os mencionados representantes de poder público local. Foram por ela assegurados que a situação era temporária.

Finalmente a 4 de maio, o decreto foi revogado. Mas com uma alteração. Eventos na praça estão agora sujeitos a uma taxa minima de R$9000, o que só permitirá eventos financiados pelo setor privado:

Tal medida materializada pelos decretos 13.960 e 13.961 e editada na ultima terça-feira 4 de maio,  pretende dar aos espaços públicos o mesmo tratamento dos “salões de festa”, pode?

E assim, parece agora que a praça irá receber a copa virtual patrocinada pela coca-cola. Barraquinhas de comes e bebes, banheiros quimicos, écrans gigantes, segurança e as inevitáveis bilhetes pagos tomarão conta da praça, e intensifica-se a discussão à volta dos usos a ela dados pela Prefeitura. Os cidadãos se perguntam agora se é este o futuro de seus espaços públicos: controlar quem tem acesso à praça e cobrar por isso.

Essas intervenções se definem por moldes dos velhos projetos característicos de todas as modernas cidades erguidas sob os pressupostos unitários do capitalismo: limpeza de aspecto fundamentalmente classista, projetos infra-estruturais de custos estratosféricos, restauração de pontos turísticos e outros.

Tais preocupações vão ao encontro dos debates atuais pelo mundo fora relativamente à função dos espaços urbanos. Em anticipação do próximo campeonato do mundo de futebol em 2014, que ocorrerá no Brasil, e os Jogos Olímpicos que terão lugar no Rio de Janeiro em 2016, os cidadãos começam agora a ver os primeiros sinais de uma política pública de gentrificação, importada do exterior como parte da tendência global do poder para aumentar o controle exercido sobre a população mundial. No Brasil, tais preocupações já se fazem sentir e são denunciadas em várias cidades, particularmente no Rio e São Paulo.

Invariavelmente, as olimpíadas dão início a uma blitzkrieg contra pobres e moradores de rua, criando um verdadeiro estado de exceção. Zonas da cidade são praticamente fechadas a quem não tiver ingresso, as ruas são socialmente higienizadas e a polícia passa a agir com truculência animalesca contra os não convidados para a festança de gringo que vamos montar.

Assim, apesar de não haver espaço na praça para a toalha de um amante de praia durante a próxima copa, o Movimento Praça Livre continua a luta para libertar os espaços públicos, e pergunta no seu blog, se o novo decreto cairá como aquele que veio revogar. A resposta assenta em ação popular e a pergunta passa a ser: até onde crescerá este movimento e quantos mais como ele surgirão no Brasil durante a próxima década.