desejo das ruas

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A cidade é de quem tem desejo. Desejo de cidade. É preciso desejo para fazer cidade, espaço público, vida pública. Os desejos, nas cidades atuais, não são de cidade. São desejos anti-cidade, são desejos faltosos de uma cidade-nutriz, que alimentaria o narcisismo de seus cidadãos ininterruptamente. As pessoas – a classe média, sobretudo – geralmente não desejam a cidade. Não sabem ocupá-la, apenas se ocupam nela. Não desejam a cidade, desejam que a cidade realize seus desejos.

No último sábado, 6 de março, Belo Horizonte viveu uma celebração. Aliás, já a vem vivendo há dois meses. É nossa praia! Nossa praça-praia, nossa celebração do desejo. Como nas praias, com pouca roupa, com música, com cerveja, com banho temos celebrado nossos corpos-e-almas numa festa do sol. Mas, diferentemente das praias, a nossa é de cimento e asfalto. E está bem no meio da cidade, no meio do centrão. Nossa praia é o umbigo de uma cidade que não se enxerga.

A política oficial mineira – afastado todo o anedotário que ronda a mineiridade – é de uma violência conservadora quieta, de poucas palavras, mas muito eficiente. Essa macro política mineira, que se quer representante da vida das gentes todas daqui, é a sepultadora do desejo, é a que faz retornar toda vida pública ao privado. Tudo é familiarizável, tudo é convertido a alguma familiaridade e a algum familialismo: “voltem para dentro de casa, e estará tudo bem…” Em suma, coisas da tradição – e por aqui, em Belo Horizonte, jovem-velha cidade planejada, trata-se da tradição do progresso.

Mas, desde janeiro, temos celebrado a vida, a despeito de todas as tradições. Temos celebrado em público! Mais especificamente, na praça pública. Temos nos manifestado, coisa difícil, para nós, brasileiros.

Este dia 6 ficará marcado para todos nós: mais de 600 pessoas lá estavam para o Eventão da Praça da Estação. E é só agora que percebo que o Eventão era uma espécie de contraponto a outro evento, esse, sim, megamirabolante superprodução: a inauguração do Centro Administrativo de Aécio Neves, sua Disneylândia, seu parque de diversão do poder. O eventão-da-estação é a linha de fuga, é a vida nas ruas, nas praças. Os fluxos da cidade, assim como os do desejo que aqui se vive, os fluxos estão estancados, drenados. A vida drenada pro trabalho cotidiano, pras festinhas, pro futebol, pro shopping… e o desejo segue na mesma linha. Temos desobedecido, temos que desobedecer. Temos que manifestar nossa desobediência, discordar e despertar. Levantar do berço esplêndido e despertar para uma vida feita de novos possíveis: pra que exemplo melhor disso do que uma praia em Belo Horizonte? Pra que contra-ponto melhor a uma cidade fantasma, feita de mais de um bilhão de reais (aliás, nunca saberemos o valor exato) e vidros fechados, do que uma praça aberta ao sol?

Aliás, acho que temos que jogar um pouco de sol nalguns modos vidas, ou, se quiserem, “mentalidades” belohorizontinas. Nossa cidade tem, cada vez mais, sustentado um modo de vida privado e privatizante. As ruas e as praças têm sido esvaziadas. Por isso, deixo um convite final: “vem, vem pra praia vem! vem, vem pra rua vem!”

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Uma resposta to “desejo das ruas”

  1. Luther Blissett Says:

    bacana, é isso mesmo: ocupemos a cidade!

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