Praia da Estação: Debaixo da praça, a praia; debaixo da praia, uma cidade inteira a ser ocupada

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A Praia já aconteceu e foi  extremamente prazerosa.  Talvez soe clichê dizer que as pessoas pareciam estar em uma mesma sintonia.  Havia ali na Praça da Estação uma pluralidade de discursos,  com pessoas de vários pontos da cidade, de diversas idades e ideologias, todos compartilhando o mesmo espaço com o intuito de se divertirem e debaterem sobre o significado de se estar ali.

Mas é importante frisar: a Praia já aconteceu e acabou. Não se trata de afirmar que outras não poderão ocorrer ou clamar por um espontaneísmo purista de sua organização, mas pensarmos que quanto mais gerarmos expectativas para algo que se mostra fluido e de agregação horizontal corremos o risco de cairmos em  um evento que incida na perda do seu potencial político e radical, preocupando-se apenas em fornecer mais um serviço cultural para tirar as pessoas de seu final de semana entediante.

É preciso que se comece a pensar de fato no que pode significar invadir uma praça, fazendo dela um espaço de convivência e interação para, depois de tudo, voltar para casa em um ônibus que cada vez fica mais caro, no trânsito abarrotado de carros e em meio a pessoas sem perspectivas. Você tem o seu final de semana divertido e lúdico, mas na segunda-feira é obrigado a acordar cedo e ir trabalhar em um emprego que não gosta. Não seria contraditório esquecer isso? Todas estas contradições cotidianas estão relacionadas também com essa intervenção, e revelam o quanto não podemos nos limitar às questões de eventos artísticos poderem ou não ocorrer na Praça da Estação, como a maioria da imprensa noticiou em sua cobertura rasa e primária, um release.

O cerco se fecha em toda a cidade, sob o nome requintado de “revitalização”, que acontece não só em Belo Horizonte, mas atinge São Paulo e suas rampas/bancos antimendigos, a proibição da permanência em algumas áreas do centro; varre a região do cais do porto no Rio de Janeiro, desalojando famílias, recrudescendo investidas nos morros. Só alimentam uma cidade gentrificada e “limpa”, cujo uso não interessa, desde que possa gerar belos cartões postais. Belo Horizonte segue essa inclinação urbanística, esperando que a Copa de 2014 faça escorrer pela cidade uma torrente de dinheiro turístico que justifique essa paranóia higienista e orwelliana, como o “Projeto Olho Vivo” que coloca centenas de câmeras no centro da cidade, querendo nos fazer crer que o preço da “segurança” é a eterna vigilância.

Ações como a Praia vão na direção contrária dessa tendência e nos mostram que parece ser muito mais simples afastar o tédio, se divertir e dialogar com a cidade… então por qual razão esperar que alguém promova algo para aproveitar a cidade? Por que fazer isso só no centro, na praça da estação e não em seus próprios bairros?

É por essa razão que vale pensar no paradoxo de se fazer da Praia mais um evento espetacularizado. Por que não exigir tudo? Tudo que pode ser tomado de volta merece ser ocupado, e isso quer dizer não só a Praça da Estação mas todas as praças, todas as ruas e pontos não utilizados da cidade. Impossivel não dialogar com outras mobilizações de Belo Horizonte (Movimento Passe Livre, Brigadas Populares, movimentos dos sem-teto, Bicicletada, dentre outros), é necessário que saiamos do gueto artistico, ainda conservando todo o bom-humor e aspecto lúdico que nos permita exigir TUDO!

… pois a práxis é nossa!

Amig@s da Próxima Insurreição e [conjunto vazio]

fonte: http://comjuntovazio.wordpress.com/2010/01/21/praia-da-estacao/

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2 Respostas to “Praia da Estação: Debaixo da praça, a praia; debaixo da praia, uma cidade inteira a ser ocupada”

  1. Anônimo Says:

    OLá!
    Muito legal o texto! Claro e emocionante.
    Mas a praia não morreu, ela vive aqui, em nossas mentes e na busca por outras posturas diante da higienização da nossa cidade.
    Abç
    Fidel

  2. João Flor de Maio Says:

    Maravilhoso.
    Só pra constar, próximo verão eu vou estar lá, com ou sem razão(acho que sem é mais interessante)

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