Bom dia a todos, me chamo Pedro Marra e venho acompanhando o andamento da praia e deste blog desde sua criação. Como vi, na lista de emails, uma movimentação avaliativa da praia, resolvi deixar minha contribuição aqui, já que o texto acabou ficando muito longo. Gostaria de deixar claro que os apontamentos aqui colocados não dizem respeito a todos os membros da praia, e que são indicações no sentido de auxiliar o andamemnto das ações. Novamente gostaira de pedir desculpas pelo tamanho do texto, já que vem-se cobrando na lista pelo exercício da síntese. Bem, creio que o tamanho da síntese se adequa a quantidade de coisas a se dizer. E não consigo dizer o que tenho para dizer sem um percurso de minha participação e impressões do movimento. Então, vamos lá.
Entre janeiro e março do ano passado tentei diversas vezes participar das discussões da praia. Achei tudo aquilo uma forma muito bacana não só de ocupar a cidade, mas de discutir a participação da população nos destinos de Belo Horizonte. Ainda acho que tem esa potência toda, mas é preciso alguns cuidados para realizarmos estes objetivos. Em janeiro fui em uma reunião do meio de semana e me desanimei deveras. Para ser escutado era necessário falar mais alto que todo mundo. Alguns participantes (alguns bem falantes e gritantes) inisitiam em querer igualar idéias diferentes só porque delas discoradavam, algo como pensem comigo, ou pensem diferente. Me pergunto se este artifício teria o objetivo de facilitar a contraargumentação que já estava pronta previamente… Lembro também, que as questões de divulgação da praia, líderes e diálogo com a imprensa eram o principal ponto de divergência. Fiquei com uma grande preguiça da reunião e não mais voltei, embora continuasse lendo às mensagens e indo a praia.
Mais tarde, por causa dessa mesma questão – a de divulgação do evento, a necessidade dele se ampliar, etc, me envolvi em uma discussão difícil aqui na lista. Defendia a necessidade do público da praia se ampliar, a necessidade de se divulgar a idéia para além do boca a boca e da internet: isso para que saíssemos do circuito restrito da relação social direta, seja virutal ou presencial. Meu incômodo com a questão vinha menos do fato de “ver os mesmos rostos toda a semana no mesmo local realizando a mesma coisa”, do que com certos comentários de pessoas de fora da praia que havia escutado: um sábado, chegando na praia escutei duas moças que iam para o metrô perguntarem o que era aquilo, lembrarem que se tratava da praia e comentarem que era uma coisa sem sentido; caminhando na savassi, passando em frente a um bar meio mauriciola, escutei uma mesa comentar que um bando de maluco continuava tentando transformar a praça em praia.
No auge da questão, levei uma turma de comunicação do Izabella Hendrix para fazer um trabalho na praia. Eles dividiram-se em 5 grupos, 3 acharam aquilo tudo muito massa, 2 não conseguiram entender o significado da ação: eram alunos até politicamente ativos, de tendências diversas, não os julgo alienandos, mas que não conseguiam perceber o siginificado político para além da festa. Conversei com a turma e em acordo, reafirmamos a necessidade da praia sair do seu circuito interno. Pedi que postasem sua produção no blog da praia, que é de livre postagem. Um dos grupos que não havia entendido o significado político do evento causou frisson na lista. Circularam emails por aqui assustados com o reacionarismo da classe mais alta de Belo Horizonte. Afirmaram que eram estagiários da prefeitura tentando detonar o movimento a partir do próprio site. Esclareci que eram meus alunos, alguns alunos carentes, com bolsas do prouni, que trabalham oito horas por dia e de noite vão estudar.
Quando, nesta época, sugeri a confecção de um material gráfico que explicasse a questão da praia, que abrisse uma discussão sobre espaço público, com uma linguagem fácil e direta, me voltaram a questão: por que você não faz isso sozinho? Ora, acho que se eu propus alguma coisa na lista era porque queria fazer com outras pessoas – não via sentido em fazer algo da minha cabeça e distribuir eu mesmo, não acredito em exércitos de um homem só. Além do mais, senti à época que não havia vontade que estas coisas circulassem assim nessa época – me lembro de ver panfletos que foram distribuídos na praia em seu início, entregues a mim, mas não a alguns moradores de rua que ali também estavam, tentando entender o que acontecia ali. Fiquei um pouco desanimado com a atitude que me pareceu a seguinte: nossa reinvidicação é legítima, logo todos têm que a entender assim; quem discorda é alienado ou está querendo sabotar. Decidi apenas acompanhar as discussões.
A audiência pública foi marcada e compareci. Achei que aquilo tudo foi muito bacana, principalmente com a possibilidade de reunião com o prefeito. A causa parecia amadurecer, com os participantes mostrando saber mais sobre a praça da estação e o código de posturas da cidade, bem como o seu plano diretor do que os técnicos da prefeitura (que de maneira ridícula, insistiam em separar a praça da estação – materializada na esplanada e a praça rui barbosa – a parte com os jardins). Após estes acontecimentos, veio a discussão a respeito da reunião com o prefeito. Alguns achavam que não se deveria ir e acabou que algumas pessoas compareceram. Este foi um momento em que correu-se grava risco de jogar fora a água do banho com o bebê. Quando uma autoridade chama para conversa é fundamental que se apresente questões, problematize-as e apresente possíveis soluções, para que o diálogo seja estabelecido. Aqueles que ali foram – e creio que nem foi exatamente culpa deles, mas um certo receio de causar confusão com um determinado conjunto de pessoas dentro da praia, geralmente os mais arredios com as formas institucionalizadas de organização, discussão e contestação – chegou a reunião repetindo certos jargões que nada dizem para os burocratas e autoridades: nós não somos ninguém, não temos líderes, queremos a praça. O prefeito foi embora antes da reunião terminar, dizendo entre os seus: Ah é isso? Dá licensa que eu tenho que ir pra minha aula de yoga. A praia demonstrava para as autoridades algo bastante diverso do que mostrara durante a audiência pública: incapacidade de chegar a acordos (não digo consensos) a respeito de questões, reivindicações, propostas e soluções.
Neste momento, o verão já estava em seu final e a praia esvaziava a cada final de semana. Um segundo eventão foi realizado, estava viajando, não soube o que aconteceu e as notícias que tive não foram animadoras. O evento com o prefeito mostrou uma outra incapacidade da praia: propor soluções para a questão do caráter público do espaço, talvez até uma confusão sobre o que seja o espaço público: espaço público não como espaço de ninguém – concepção tão comum na cabeça dos brasileiros; creio que esta seja uma das razões da falta de interesse das pessoas em geral no espaço público – mas espaço público como lugar de todos parecia a idéia dominante entre os praianos. O equívoco nesta concepção, creio é a de não levar em conta que o espaço público é compartilhado por todos. Pensar que ele é de todos, pode levar ao equívoco de que todos podem fazer nele o que quiserem, já que ele é meu, assim como de todo mundo – funciona como o reverso da moeda do espaço de ninguém. Pensá-lo como espaço compartilhado por todos, impõe a questão do limite do outro que compartilha o espaço comigo, coloca a questão: mas será que posso fazer aqui o que quiser mesmo? O que é legítimo e o que não é? Vale tudo em termos de intervenção no espaço público? A posição da prefeitura, ao limitar a ocorrência de eventos na praça, impõem cercamentos do espaço público, impedir o ir e vir da população é sim uma forma de privatizar o espaço público. Mas pensar que podemos fazer o que quisermos no espaco público, que tudo em matéria de intervenção urbana é válido, porque é a expressão da vontade da população também é privatizar a praça. Pensemos nisso.
De alguma forma, penso que esta questão toca a da abrangência da praia. E quando digo isso é que quando a questão da ampliação do público da praia, sempre escuto algumas saídas pela tangente: fala-se que a praia já é diversa, diz-se que isso virá naturalmente, fala-se da banalização da praia e da perda de seu significado político. De um lado, vemos a criação de caixinhas que produzem uma pretensa diversidade em um grupo relativamente restrito (e que dizem de um lugar social mais abrangente) de 500 pessoas, a grande maioria, ligadas de maneira direta ou indireta, como produtores, consumidores ou frequentadores de um certo burburinho cultural em BH que, felizmente, tomou forma na cidade de 5 anos pra cá, aproximando, de maneira bastante salutar, algumas instâncias da produção cultural da cidade que se encontravam distantes apenas dois ou três laços na rede social. Podemos ver que quem vem agitando a praia são as mesmas pessoas que participam dos blocos carnavescos de três anos prá cá, o pessoal dos coletivos de música e arte, enfim, não precisamos dar nomes aos bois, sabemos bem de quem se trata, quem quiser saber é só olhar no blog e ver os nomes (restritos a não mais que 100) nos comentários…
De outro, vemos um misto de fascínio e medo de que exista uma invasão da praia. Quando digo isso, é porque toda a vez que vi uma proposta de produção de material que possa “popularizar” a praia, vemos argumentos como: já fazemos isso no boca a boca e na internet; mas a gente criou um monte de sticker e outras intervenções urbanas; se você quer fazer isso, então faça, aqui ninguém é líder para impedir que estas coisas sejam feitas. Bom, a internet, a gente sabe que amplia as redes sociais, mas de maneira geral a informação fica restrita a certos grupos. Isso porque eu sou amigo de ciclano que é amigo de fulano. Beltrano, que é amigo de fulano, também é meu amigo e de ciclano e o circuito se fecha aí, ampliamos nossa capacidade de disseminação, mas não de maneira tão intensa quanto imaginamos. Lembremos que vivemos em uma cidade de 3 milhões de habitantes. O mesmo acontece com o boca a boca: posso até convencer a faxineira do prédio, o trocador do ônibus, o caixa da padaria, o namorado playboy da minha irmã da validade das reivindicações da praia. Mas não garanto que ele vá comparecer à praia, para ajudar a fazer número, ou que se torne um agente multiplicador da boa nova do espaço público.
As intervenções paralelas, stickers e materiais gráficos de cunho artístico, etc, são lindos, conseguem dar o nosso recado de maneira sintética e pouco estandardizada, de maneira diferente, mas mais uma vez, creio que de forma geral acabam funcionando mais uma vez como a gente falando conosco. Isso porque (e creio que os textos do blog também entram neste quesito) falam uma linguagem para as pessoas que já estão iniciadas no debate a respeito do espaço público. Lembremos que a concepção dominante na nossa sociedade sobre o espaço público ainda é a de espaço de ninguém e que por isso não nos diz respeito. Acho lindo um sticker me alertando que não posso fazer pique-nique na praça. Mas lembremos que não vivemos na Argentina onde é comum realizar convescotes em qualquer esquina gramada, praça pública e etc. Este tipo de comunicação não faz sentido para grande parte dos cidadãos comuns, porque busca estimular práticas que eles não percebem como práticas possíveis: quero fazer um piquenique? Vou para a cachoeria, ou para o parque das mangabeiras, é o mais comum de se pensar. Sim, é preciso ensinar as pessoas que faz sentido fazer pique-nique nos espaços da cidade. Mas não se faz isso afirmando que o governo não dá esta possibilidade, porque esta já não é uma possibilidade no imaginário urbano Belo Horizontino.
Finalmente, as afirmações de que se pode fazer o que quiser para a divulgação da praia, porque ninguém vai vetar é no mínimo broxante, quando se trata de executar estratégias de comunicação mais sistemáticas. Em primeiro lugar, qualquer iniciativa deste tipo de atitude não surte efeito se tomada pelo exército de um homem só: o material tem que ter linguagem fácil e direta, e para isso, é necessário que muitas pessoas participem, pelo menos da leitura e revisão do material; ele deve ser deixado em diversos lugares para ser distribuído simultâneamente, ele precisa de uma tiragem grande. Temos vários comunicadores por aqui, então tem muita gente que sabe disso. E este tipo de abordagem surte efeito – é a base de grandes mobilizações sociais como campanhas de vacinação, recolhida de mantimentos para atingidos por desastres, etc. Ela não elimina as outras estratégias mais novas, diferentes, revolucionárias. Pelo contrário, ela as amplia para pessoas que não temos contato direto e que não dominam o jargão que vivemos utilizando em nossas discussões. Agora quando alguém me diz que não preciso de autorização para articular este tipo de ação, mas que não vai ajudar em nada, fico broxado: de maneira subentendida, escuto dessas pessoas que elas preferem que este tipo de ação não seja realizada, principalmente porque nos threads de discussão as afirmações aqui tratadas vêm sempre articuladas (o boca a boca e a internet são mais eficientes, já temos formas mais poéticas de dizer estas coisas), além de trazer outras argumentações, como as de medo de cooptação por partidos políticos e movimentos sociais, ou de que a mídia distorce as intenções da praia. Ora a mídia repete o senso comum da sociedade, grande parte das vezes. Se ela cobre a praia como um evento festivo, é sintoma de que a sociedade, de maneira geral a enxerga assim, e não o contrário. No final, fico me perguntando se a praia quer mesmo uma ampliação de público, principalmente em um momento em que as pessoas pedem permissão para dar pitaco e que o 3o eventão é divulgado no facebook (numa estratégia de 2 gumes) como um evento que atesta a qualidade descolada de seus participantes.
Daí que chegamos a questão da praia que é sim de ocupação do espaço público, mas é sobretudo cultural, no sentido que tensiona o que é participação política, e o que é espaço público. No caminho para conseguir avanço no que diz respeito a ocupação da cidade, lutamos contra uma série de preconceitos estabelecidos no imaginário social, que nos dizem que a única forma de participação política é o voto na eleição e nos plebiscitos, que quem deve decidir os destinos da cidade são os especialistas (arquitetos, urbanistas e engenheiros de trânsito), que o espaço público não é de ninguém ou é de todo mundo. Separar a política partidária da política cotidiana, produzindo dicotomias artificiais; invalidar a participação política por meio do voto, tratada como integração ao sistema ou como farsa; recusar-se a dialogar como os burocratas, especialistas, e autoridades, desprezando os conhecimentos que (por mais que unidimensionais em alguma medida servem para alguma coisa) eles têm, ou achar que se pode fazer o que se quer na cidade (como vi pessoas ligadas a praia colocando cartazes com palavras de ordem que encobriam placas de pontos de ônibus, durante o transborda) não nos ajuda em nada. Pelo contrário funciona como tiro no pé, na medida que confirmamos os preconceitos existentes na cidade a respeito da praia, já que fazemos exatamente o que se espera de nós.
Estreitar relações com outros movimentos sociais é importante, porque eles têem estratégias de comunicação com suas bases consolidadas e eficientes. Agora, temos que lembrar que as questões da praia, principalmente se pensamos o espaço público como compartilhado por todos, dizem a todos os habitantes da cidade. Nossas bases, então, são os cidadãos de Belo Horizonte é a eles que nos dirigimos. Por isso, em algum momento, será necessário sim, encarar questões como eleições ou uma comunicação ampla e facilitada com a população da cidade. Lembremos que enquanto nos preocupamos com os “estagiários contratados para se infiltrar no blog e nos comentários do praia”, o prefeito está tomado decisões (estas sim, sabotadoras das nossas pretensões) que jogam poeira sob nossas reivindicações. Afinal, como dizer que o prefeito proíbe a ocupação do espaço público de Belo Horizonte, se ele realiza a maior festa de ano novo de todos os tempos em praça pública e ainda volta os desfiles das escolas de samba para a praça da estação?
Abraços fraternos.